King's Man: A Origem crítica: Ralph Fiennes salva o mundo, o filme acerta só pela metade
Quem diria que a origem da franquia de espionagem mais doida do cinema ia querer se vestir de drama sombrio da Primeira Guerra Mundial? King's Man: A Origem tenta vender dois filmes ao mesmo tempo: uma história de guerra de apertar o coração e uma comédia de ação exagerada e sangrenta. Às vezes um vence, às vezes o outro, e o espectador fica quicando de um lado para o outro.
Vale pela dupla Ralph Fiennes e Rhys Ifans, mas o próprio filme parece inseguro sobre o tom que quer ter.
Ficha do filme
| Original | The King's Man |
|---|---|
| Estreia no Brasil | 06/01/2022 |
| Direção | Matthew Vaughn |
| Elenco | Ralph Fiennes, Gemma Arterton, Rhys Ifans, Matthew Goode, Tom Hollander, Harris Dickinson |
| Gênero | Filmes de ação, Filmes de aventura, Thrillers |
| Duração | 131 min |
| Classificação | 16 |
| País | Filmes britânicos, Filmes americanos |
Do que se trata, sem spoilers?
A premissa é simples, a execução nem tanto. Os piores tiranos e mentes criminosas da história se reúnem para provocar uma guerra e eliminar milhões de pessoas, e só um homem, correndo contra o tempo, pode detê-los. Esse homem é Orlando Oxford, vivido por Ralph Fiennes, e ao lado dele está o filho, Conrad, interpretado por Harris Dickinson.
Ou seja, King's Man: A Origem não acompanha os agentes Kingsman dos dias de hoje. O filme volta no tempo, até o ponto em que a semente da organização pode ter sido plantada. Não vou contar mais do que isso, porque os melhores momentos nascem justamente de não saber para onde a história vai virar na cena seguinte.
O título original é The King's Man, e o subtítulo brasileiro já entrega o que esperar: é uma história de origem, um prelúdio da franquia. Quem curtiu os dois primeiros filmes vai reconhecer vários elementos, só que com ênfases bem diferentes.
Matthew Vaughn na corda bamba do tom
O nome de Matthew Vaughn garante pelo menos uma coisa: você não vai se entediar. Desde Kick-Ass e os dois primeiros Kingsman, o diretor é mestre da violência estilizada, exagerada e engraçada, e ele não esqueceu disso aqui. O problema é que dessa vez ele quis também algo mais sério. Em muitos momentos o filme se comporta mesmo como um drama de guerra, com uma relação entre pai e filho e reflexões sobre a falta de sentido da guerra.
Respeito muito essa ambição. Só que, quando uma sequência de ação maluca, quase de desenho animado, aparece cinco minutos depois de uma cena comovente, um clima anula o outro. O problema não é Vaughn misturar as coisas, e sim nem sempre acertar a costura. Já o lado técnico da direção é impecável: a câmera sabe onde precisa estar, e a coreografia das lutas é clara e cheia de sacadas.
Ralph Fiennes, o cavalheiro assassino perfeito
Se eu tivesse que dar um único motivo para assistir, seria Ralph Fiennes. Como Orlando Oxford, ele é ao mesmo tempo digno, cansado, pai amoroso e esgrimista letal. Fiennes é daqueles atores que dizem mais com um movimento de sobrancelha do que muita gente com um monólogo inteiro, e aqui finalmente ganha cenas de ação. Elegante, de humor seco, carrega com credibilidade o peso do passado.
Harris Dickinson, como Conrad, faz o jovem empolgado e louco para provar seu valor, e a dinâmica entre os dois é a espinha dorsal emocional do filme. Gemma Arterton, como Polly, tem menos tempo de tela do que merecia, mas rouba todas as cenas em que aparece. Djimon Hounsou, como Shola, é uma presença forte e carismática, e com ele também fiquei com a sensação de que queria ver mais.
A dança de Rasputin e o desfile de vilões
E agora vamos falar de Rhys Ifans, porque não dá para deixá-lo de fora. Como Grigori Rasputin, ele entrega uma atuação tão solta, descarada e deliciosamente nojenta que os minutos mais memoráveis do filme são claramente dele. Ifans sabia muito bem em que tipo de filme estava e ainda dobrou a aposta. É exatamente esse tipo de loucura que faz a gente assistir a um filme da franquia Kingsman.
É muito divertida a ideia de colocar Tom Hollander para interpretar ao mesmo tempo o Rei George, o Kaiser Wilhelm e o Czar Nicolau. O papel triplo funciona como piada e como comentário irônico sobre o quanto a grande política era um assunto de família. Daniel Brühl como Erik Jan Hanussen e Matthew Goode como Morton também dão cor ao elenco. Com um time desses fica difícil errar, e o filme não erra.
Onde o filme tropeça?
Os 131 minutos de duração pesam. A primeira metade demora a engrenar, com muita preparação e explicação do contexto histórico, e teve um momento em que pensei: tá, mas cadê o Kingsman? King's Man: A Origem muitas vezes é mais aventura de época do que filme de espionagem. Não é defeito, só é diferente do que os fãs esperam.
O outro ponto fraco é a estrutura do roteiro. A conspiração dos vilões às vezes é complicada demais, às vezes simplista demais, e as grandes revelações não batem tão forte quanto deveriam. Os melhores momentos são as cenas isoladas, um duelo aqui, um diálogo ali, e não o conjunto.
- O que funciona: Fiennes, Ifans, as cenas de luta, os figurinos e os cenários.
- O que funciona menos: o ritmo, as mudanças de tom, o desperdício de coadjuvantes.
Visual, trilha e clima
Visualmente o filme é lindo. Os interiores de época, as roupas, os castelos e o contraste com o campo de batalha rendem imagens fortes. Quando Vaughn mostra a realidade da guerra, o resultado é mesmo angustiante, e essa é uma das decisões mais corajosas do filme. A trilha serve bem às cenas: acelera na ação e não atropela no drama. Não é tão marcante quanto os momentos icônicos do primeiro filme, mas cumpre o papel.
É um filme violento, e as cenas de guerra não aliviam nada. Não é programa para criança, por mais brincalhonas que algumas partes sejam.
Para quem é?
- É para você se: Para fãs de Ralph Fiennes, para quem gosta de ação de época e para quem não se incomoda quando um filme de espionagem se leva mais a sério do que o normal.
- Melhor pular se: Quem espera apenas o estilo descontrolado e descontraído dos dois primeiros Kingsman vai se decepcionar. Pela violência, também não é indicado para o público mais jovem.
Se gostar, veja também: Kingsman: Serviço Secreto (2014), Kingsman: O Círculo Dourado (2017), Sherlock Holmes (2009), Bastardos Inglórios (2009), 1917 (2019)
Perguntas frequentes
Quando King's Man: A Origem estreou no Brasil?
O filme estreou nos cinemas brasileiros em 6 de janeiro de 2022.
Qual a duração de King's Man: A Origem?
O filme tem 131 minutos.
Quem dirigiu King's Man: A Origem?
A direção é de Matthew Vaughn, que também comandou os filmes anteriores da franquia Kingsman.
Quem está no elenco?
Ralph Fiennes é o protagonista, no papel de Orlando Oxford, ao lado de Gemma Arterton, Rhys Ifans, Matthew Goode, Tom Hollander, Harris Dickinson, Daniel Brühl e Djimon Hounsou.
Qual é a história de King's Man: A Origem?
Tiranos e mentes criminosas da história querem provocar uma guerra para eliminar milhões de pessoas, e um único homem tenta detê-los numa corrida contra o tempo.
Vale a pena voltar às raízes da Kingsman?
Vale, mas sem as expectativas de sempre. King's Man: A Origem é irregular, longo demais e nem sempre sabe se quer ser comédia ou tragédia. Mesmo assim, a presença digna de Ralph Fiennes, o Rasputin desembestado de Rhys Ifans e algumas cenas de ação realmente ótimas já valem uma noite. Não é o auge da franquia, mas é um filme mais corajoso do que eu esperava, e por isso tendo a perdoar seus defeitos. Com uma taça de vinho e o coração aberto: nota sete, arredondando para cima.
