Belfast crítica: a carta sincera de Kenneth Branagh para uma infância perdida
Tem filme que não é filmado, é arrancado de dentro. Belfast é assim: Kenneth Branagh acompanha, pelo olhar de um garoto, a rua amada e a casa segura começando a ruir aos poucos. Um filme pequeno com um coração enorme, que acerta justamente onde você menos espera.
Um drama familiar caloroso, inteligente e dolorosamente bonito, que trata a nostalgia não como cobertura de bolo, mas como algo que está em jogo.
Ficha do filme
| Estreia no Brasil | 10/03/2022 |
|---|---|
| Direção | Kenneth Branagh |
| Elenco | Jude Hill, Jamie Dornan, Caitríona Balfe, Lewis McAskie, Judi Dench, Ciarán Hinds |
| Gênero | Dramas, Filmes históricos |
| Duração | 98 min |
| Classificação | 14 |
| País | Filmes britânicos, Filmes norte-irlandeses |
Uma rua onde todo mundo se conhece
O protagonista de Belfast é Buddy, um menino à beira da adolescência. A vida dele é exatamente como uma infância deveria ser: uma família amorosa por perto, aventuras na rua e até uma paixonite tímida e meio desajeitada, daquelas que dão frio na barriga. Só que Belfast, a cidade onde ele nasceu, mergulha numa turbulência cada vez maior, e a tensão do mundo dos adultos vai se infiltrando devagar no dia a dia de Buddy.
A família tem pela frente uma pergunta difícil: aguentar firme, apostando que o conflito uma hora vai se acalmar, ou largar tudo em busca de uma vida nova? É o que vale saber sobre a história. O resto, deixe o filme contar. A força dele não está nas reviravoltas, e sim no jeito como mostra esse dilema na altura dos olhos de uma criança.
E aí está o segredo. Buddy não entende direito o que acontece ao redor, mas sente. E a gente sente junto com ele, enquanto os cochichos dos adultos, os jantares tensos e os silêncios repentinos dizem mais do que qualquer explicação política.
Jude Hill, o garoto que carrega o filme nas costas
Colocar um peso desses nos ombros de um ator mirim é sempre um risco. Mesmo assim, Jude Hill, como Buddy, se movimenta na tela com tanta naturalidade que parece nem saber que tem uma câmera ali. Não há nele nada daquela afetação ensaiada típica de criança de cinema: ele é curioso, levado, assustado, apaixonado, e entrega tudo isso em gestos miúdos.
Boa parte do filme acontece no rosto dele, e funciona. Quando Buddy presta atenção, a gente presta também. Quando ele não entende por que os pais estão brigando, estamos ali sentados com ele na escada, metade curiosos, metade apavorados.
Pa, Ma, Granny e Pop: a família que todo mundo queria ter
Se Buddy é o coração do filme, a família é a corrente sanguínea. Jamie Dornan, como Pa, surpreende pela variedade: quem o conhecia sobretudo por Cinquenta Tons de Cinza encontra aqui um pai cansado, mas orgulhoso, que quer ao mesmo tempo proteger a família e preservar a própria dignidade. Caitríona Balfe, como Ma, talvez seja o elo mais forte: é a personagem dela que carrega todo o peso da decisão, e Balfe deixa claro em cada cena o quanto custa continuar forte.
Depois vêm os avós, e aqui o filme é quase atrevido de tão bom. Judi Dench como Granny e Ciarán Hinds como Pop formam uma dupla que dá vontade de adotar. Dench diz mais com um olhar do que muita gente com um monólogo inteiro, e Hinds dá ao avô um humor tão sábio e carinhoso que as cenas dos dois estão entre os momentos mais calorosos do filme.
No elenco de apoio, Lewis McAskie vive Will, o irmão mais velho de Buddy, Lara McDonnell faz Moira e Colin Morgan interpreta Billy Clanton. O personagem de Morgan é quem traz a maior dose de ameaça para aquele mundinho fechado da rua, que parecia tão seguro, e o efeito é desconfortavelmente eficaz.
Branagh volta para casa, e desta vez sem Shakespeare
A carreira de Kenneth Branagh é cheia de projetos grandiosos: ele dirigiu Hamlet, levou Thor para o universo Marvel e se aventurou pelo mundo de Agatha Christie com Assassinato no Expresso do Oriente. Perto disso, Belfast é quase um sussurro. Espaço pequeno, poucas locações, uma família, uma rua. E, mesmo assim, é o trabalho que soa mais sincero de tudo o que ele fez até aqui.
A direção de Branagh é contida e precisa. Ele não quer explicar tudo, não dá aula de política, prefere confiar nos momentos: uma conversa na cozinha, um conselho de avô, uma travessura de criança. O foco fica o tempo todo na família, e o grande pano de fundo histórico aparece do jeito que apareceria na vida de uma criança: como barulho, como medo, como uma mudança que ninguém consegue explicar.
E os 98 minutos de duração são uma bênção. O filme não se arrasta, não exagera, é uma experiência enxuta e densa que continua com você por horas depois que acaba.
Onde a nostalgia escorrega?
Claro que não é perfeito. O ponto de vista infantil tem um preço: a turbulência da cidade às vezes parece distante demais, borrada demais, e quem espera uma análise histórica profunda e cheia de nuances vai se decepcionar. Belfast não é sobre isso e nem finge ser, mas em alguns momentos dá para sentir que o filme mais afaga do que confronta.
Em certos trechos, a nostalgia também trabalha pesado. Há cenas um pouco bonitas demais, redondinhas demais, como se tivessem saído de um álbum de fotografias. Não chega a ser um problema, afinal a memória funciona assim mesmo, mas quem tem alergia a drama familiar emotivo pode achar isso excessivo de vez em quando.
- O que funciona: o elenco, principalmente Balfe, Dench e Hinds, o olhar da criança e a duração enxuta.
- O que funciona menos: o conflito de fundo às vezes fica genérico, e o filme de vez em quando quer ser gentil demais.
Para quem é?
- É para você se: Para quem gosta de dramas pessoais, em escala humana, de grandes atuações e de filmes agridoces sobre a infância. Se Esperança e Glória ou Roma mexeram com você, este é o seu lugar.
- Melhor pular se: Para quem quer trama acelerada, ação ou uma explicação histórica detalhada. Quem não suporta histórias familiares emotivas deve escolher outra coisa.
Se gostar, veja também: Esperança e Glória (1987), Roma (2018), Jojo Rabbit (2019), Minari (2020), Os Fabelmans (2022)
Perguntas frequentes
Quando Belfast estreou no Brasil?
Belfast estreou nos cinemas brasileiros em 10 de março de 2022.
Qual é a história de Belfast?
O filme acompanha Buddy, um garoto à beira da adolescência, cercado por uma família amorosa, aventuras de infância e o primeiro amor. Quando a cidade onde ele nasceu mergulha numa turbulência cada vez maior, a família precisa decidir: ficar ou deixar tudo para trás em troca de uma vida nova.
Quanto tempo dura Belfast?
O filme tem 98 minutos de duração.
Quem dirigiu Belfast e quem está no elenco?
O filme foi dirigido por Kenneth Branagh. No elenco principal estão Jude Hill (Buddy), Jamie Dornan (Pa), Caitríona Balfe (Ma), Judi Dench (Granny), Ciarán Hinds (Pop), Lewis McAskie (Will), Lara McDonnell (Moira) e Colin Morgan (Billy Clanton).
Vale a pena voltar para Belfast com Buddy?
Vale, e muito. Belfast não quer salvar o mundo, só mostrar como é quando o ponto mais firme da vida de uma criança, a própria casa, começa a balançar. Só que faz isso com tanto carinho, humor e dor que fica difícil não se emocionar. Jude Hill encanta, Caitríona Balfe é uma rocha, e Judi Dench e Ciarán Hinds mereciam um ponto extra só para eles.
Não é um filme perfeito: o pano de fundo às vezes se desfoca, a nostalgia às vezes fica macia demais. Mas é raro ver um filme tão sincero, tão humano, vindo de um diretor que claramente colocou muito de si mesmo ali. Se numa noite tranquila você estiver querendo algo que realmente toque, Belfast entrega exatamente isso. Só deixe os lenços por perto.
