The Only Living Pickpocket in New York, crítica antecipada: a mão de John Turturro ainda é mais rápida que a cidade
Tem elenco que, quando aparece num pôster, já me faz comprar o ingresso, e Turturro e Buscemi no mesmo filme é exatamente isso. The Only Living Pickpocket in New York reúne, no papel, tudo o que um drama urbano tranquilo sobre criminosos envelhecendo pode oferecer. Se na prática vai funcionar, ainda não dá para saber, mas já tem muita coisa para deixar a gente na expectativa.
No papel, um dos pequenos filmes de crime mais simpáticos da temporada, que vai se sustentar ou afundar com base no elenco e na atmosfera.
Ficha do filme
| Direção | Noah Segan |
|---|---|
| Elenco | John Turturro, Giancarlo Esposito, Will Price, Tatiana Maslany, Victoria Moroles, Steve Buscemi |
| Gênero | Dramas cinematográficos |
| Duração | 88 min |
| País | Filmes americanos |
Um bolso errado, um dia ruim
A premissa é simples, e eu gosto muito disso. Harry, vivido por John Turturro, é um batedor de carteira veterano que trabalha há anos nas ruas de Nova York. Não é figurão, não é assaltante de banco, é só um sujeito de mãos ágeis que sabe a hora certa de enfiar a mão num casaco. O que ele pega, repassa para o amigo Ben, dono de uma casa de penhores e interpretado por Steve Buscemi. O negócio anda, a rotina funciona.
Aí vem o erro que move toda história desse tipo. Um dia, Harry rouba a pessoa errada: tira um pen drive de Dylan, um novo-rico misterioso vivido por Will Price. Dylan é um cibercriminoso e não é do tipo que deixa barato a perda de um dispositivo. Ele sai no encalço do veterano, e Harry precisa fugir antes que não só ele, mas também a família, acabe em apuros.
É isso que sabemos, e já basta. Não vou contar mais porque não tenho mais nada de certo para contar, mas a premissa já cria uma boa tensão: a velha guarda com a mão no bolso, a nova geração com a mão no teclado.
Um ladrão analógico no mundo digital
O que realmente me pegou na sinopse não foi a perseguição em si, e sim a ideia por trás dela. Segundo a divulgação, o filme é um heist movie melancólico sobre envelhecimento e abismos entre gerações. Essa frase diz muito sobre a intenção. Aqui, provavelmente, o foco não vai estar em planos mirabolantes de roubo e cortes acelerados, mas em como é envelhecer numa profissão que aos poucos perde o sentido.
Pensa bem: bater carteira é um ofício criminoso clássico, quase romântico, feito de destreza, atenção e timing. Numa época em que o dinheiro está no cartão e no celular, e o que vale de verdade cabe num pen drive, o batedor de carteira é mesmo o último da espécie. Por isso o título é certeiro. O confronto entre Harry e Dylan tem tudo para ser não só um duelo entre dois homens, mas entre duas épocas, e se o roteiro souber trabalhar isso, pode sair algo amargo e comovente.
Turturro e Buscemi: dupla melhor seria difícil achar
Não vou fingir imparcialidade: John Turturro e Steve Buscemi juntos na tela são uma pequena festa para mim. Os dois são ícones do cinema independente e autoral americano dos anos 90, rostos frequentes nos filmes dos irmãos Coen, e ambos têm aquele dom raro de transformar um tipo pé de chinelo, meio patético, num personagem humano e cativante. Um batedor de carteira em fim de carreira e o amigo da casa de penhores? Esses papéis parecem feitos sob medida para eles.
Segundo a divulgação, Turturro está em plena forma, e não é difícil acreditar. Ele é o tipo de ator que conta a história inteira de uma vida desandada com um único olhar. Ao lado deles está Giancarlo Esposito, cuja simples presença já traz tensão: desde Breaking Bad a gente sabe o quanto ele assusta mesmo em silêncio. Tatiana Maslany provou com Orphan Black que consegue interpretar praticamente qualquer coisa, e Victoria Moroles também está no elenco.
O maior ponto de interrogação, para mim, é Will Price. Ele faz o vilão, o jovem cibercriminoso, e precisa enfrentar com credibilidade um time de veteranos desse calibre. Se der certo, o choque de gerações aparece também nas atuações. Se não der, a ameaça do filme pode evaporar.
Noah Segan na cadeira de diretor
Quem dirige é Noah Segan, que muita gente conhece principalmente como ator, figurinha carimbada nos filmes de Rian Johnson. Como diretor, porém, ainda não é um nome que me dá certeza do que vou encontrar. Isso é ao mesmo tempo empolgante e arriscado.
A favor dele: atores que viram diretores costumam ter uma mão especialmente boa com o elenco, e num filme tão centrado em personagens isso vale ouro. Se Segan deixar Turturro e Buscemi brilharem, metade do caminho já está andado. Contra: um filme de roubo pede ritmo, a melancolia pede paciência, e equilibrar as duas coisas não é tarefa fácil.
Já os 88 minutos de duração são um ótimo sinal. Hoje em dia, quando metade dos filmes passa das duas horas e meia, um filme de crime urbano enxuto, de uma hora e meia, é um alívio. Não sobra tempo para enrolação, e tomara que não tenha mesmo.
Uma sinfonia da cidade que nunca dorme
Pela sinopse, o filme não é só um drama policial, mas também uma espécie de sinfonia sobre Nova York. Isso me agrada demais, porque a cidade sempre foi uma das melhores personagens do cinema. Da Nova York suja e viva dos anos 70 à metrópole reluzente e meio estranha de hoje, a própria cidade pode falar sobre envelhecimento e mudança. Ver as ruas antigas ganhando cara nova pelos olhos de um batedor de carteira idoso pode ser o trunfo escondido do filme.
Se Segan e a equipe de fotografia souberem aproveitar isso, a atmosfera sozinha pode carregar o filme. Mas se a cidade virar só cenário, perde-se justamente o que poderia tornar a proposta especial.
Onde pode dar errado?
Sinceramente, o maior risco é o filme ficar modesto demais. O pen drive como MacGuffin é um recurso bem batido, e a linha do “velho em fuga com a família em perigo” pode facilmente ficar previsível. Se o roteiro não trouxer reviravoltas originais o bastante, os ótimos atores podem acabar presos num thriller comum.
O outro risco é o tom. Melancolia e perseguição nem sempre convivem bem. Se ficar lento demais, quem gosta de filme de roubo vai bocejar. Se ficar acelerado demais, a parte lírica se perde. Achar esse equilíbrio vai ser a verdadeira prova do filme.
Para quem é?
- É para você se: Para fãs de Turturro, Buscemi e Esposito, e para quem gosta de filmes de crime mais contidos, centrados em personagens, e do clima de Nova York.
- Melhor pular se: Quem espera ação frenética, grandes explosões e planos de roubo complicados provavelmente vai se decepcionar.
Se gostar, veja também: Fargo (1996), The Old Man & the Gun (2018), Joias Brutas (2019), Bom Comportamento (2017), A Qualquer Custo (2016)
Perguntas frequentes
Sobre o que é The Only Living Pickpocket in New York?
Sobre Harry, um batedor de carteira veterano de Nova York que rouba um pen drive de um cibercriminoso e precisa fugir antes que algo aconteça com ele e com a família.
Qual é a duração do filme?
The Only Living Pickpocket in New York tem 88 minutos.
Quem está no elenco?
John Turturro, Steve Buscemi, Giancarlo Esposito, Tatiana Maslany, Will Price e Victoria Moroles.
Quem dirigiu o filme?
O filme é dirigido por Noah Segan.
Vale a pena enfiar a mão no bolso por esse filme?
Eu acho que sim. The Only Living Pickpocket in New York não parece o tipo de filme que vai revolucionar o gênero, mas também não é essa a sua missão. A promessa é de um filme de crime urbano curto, cheio de bons atores e de atmosfera, que fala sobre envelhecer e sobre como o mundo vai deixando a gente para trás. Só a dupla Turturro e Buscemi já vale o ingresso, e se Noah Segan acertar o tom, pode ser uma ótima surpresa. Eu vou estar lá, com a carteira bem guardada no bolso de dentro.
