Flow crítica: um gato, um barco e um mundo que ficou debaixo d'água
É raro sair do cinema depois de uma animação e perceber que todo mundo está falando mais baixo. Flow, de Gints Zilbalodis, provoca exatamente isso: é a história de um gato solitário que precisa dividir um barco com bichos de outras espécies enquanto o mundo ao redor simplesmente desaparece. Um filme pequeno com um coração enorme, e é justamente por isso que ele acerta tão em cheio.
Flow é um filme corajoso, belíssimo e profundamente humano, mesmo sem ter um único ser humano como protagonista.
Ficha do filme
| Original | Straume |
|---|---|
| Estreia no Brasil | 20/02/2025 |
| Direção | Gints Zilbalodis |
| Gênero | Filmes de aventura, Filmes de animação, Filmes para a família, Filmes de fantasia |
| Duração | 85 min |
| Classificação | L |
| País | Filmes letões, Filmes belgas, Filmes franceses |
Sobre o que é Flow, sem spoilers?
A premissa é tão simples que parece saída de uma fábula: uma grande enchente expulsa um gato solitário de casa, e ele encontra abrigo num barco. Só que ele não está sozinho. Outros animais também se escondem a bordo, e para sobreviver todos vão precisar aprender a se adaptar a um mundo completamente transformado. É isso. Não tem mitologia complicada, não tem grande vilão, não tem dez subtramas correndo em paralelo.
E essa é a maior qualidade do filme. Flow não explica, ele mostra. A gente enxerga o mundo pelos olhos do gato, um mundo ao mesmo tempo assustador e fascinante, e o filme confia que o espectador, tenha ele seis ou sessenta anos, vai entender sozinho o que está em jogo. Prefiro não entrar nos detalhes da trama de propósito: vale a pena viver essa experiência como o próprio gato vive, passo a passo, cheia de surpresas.
O gato que somos todos nós
Quem já dividiu a casa com um gato derrete logo nos primeiros minutos. O protagonista não é um mascote de desenho animado, não fica fazendo graça nem piscando os olhões para a câmera. Ele se comporta exatamente como um gato de verdade: desconfiado, independente, orgulhoso e com um ódio instintivo de água. Todo o drama do filme nasce daí, afinal a pior coisa que pode acontecer com um gato é ver o mundo virar água ao seu redor.
A relação dele com os outros animais é a espinha dorsal da história. Ninguém vira melhor amigo de cara nem sai cantando no convés. A confiança se constrói devagar, às vezes até anda para trás, e é exatamente isso que deixa tudo tão verdadeiro. Foi por isso que dei uma nota tão alta em Atuação: os animadores trabalham com gestos, posturas e olhares tão sutis que esses personagens transmitem mais emoção do que o elenco inteiro de muito filme live action.
Gints Zilbalodis, o revolucionário silencioso da animação letã
Até aqui, o nome do diretor letão era conhecido principalmente por quem frequenta festivais e por fãs de animação, mas depois de Flow vai ser difícil não prestar atenção nele. Zilbalodis tem uma voz autoral que não tem nada a ver com os filmes familiares polidos e lotados de piadas dos grandes estúdios americanos. Com ele, até o silêncio fala, a câmera se demora nos planos e o espectador ganha tempo para simplesmente olhar.
A coprodução entre Letônia, Bélgica e França ainda prova que, com união europeia e uma fração do orçamento, dá para fazer uma animação capaz de encarar os gigantes de Hollywood tanto no visual quanto na emoção. Para mim, a direção é o ponto mais forte do filme: cada enquadramento tem peso, o ritmo é pensado e os 85 minutos não parecem longos em nenhum momento.
Imagem e som: quando a água é a protagonista
O visual pode surpreender quem está acostumado às texturas brilhantes da Pixar. O estilo de Flow é mais pictórico, às vezes lembra até um videogame, mas isso não é defeito, é personalidade. As paisagens são monumentais, a água é ao mesmo tempo linda e ameaçadora, e a luz cria um clima em que mesmo nas cenas mais tranquilas existe uma angústia escondida.
A câmera se move como se fosse um observador curioso acompanhando os bichos: às vezes chega bem pertinho deles, outras se afasta e mostra como são minúsculos nesse mundo enorme e alagado. O desenho de som e a trilha recebem o mesmo cuidado: o barulho da água, os sons dos animais e as camadas musicais delicadas, quase flutuantes, constroem juntos uma atmosfera que pede tela grande, e não a telinha do celular.
Onde a conexão entre o público e o filme pode falhar?
Vou ser sincero: Flow não vai funcionar para todo mundo. Quem espera uma animação infantil agitada, barulhenta e cheia de piadas pode se decepcionar. Aqui não tem referência à cultura pop nem personagem coadjuvante tagarela soltando uma piada por minuto. O ritmo é contemplativo, e em alguns momentos a história para de propósito para a gente mergulhar numa imagem, num clima.
Algumas cenas podem assustar os menores. A sensação de perigo e de vulnerabilidade está presente o tempo todo, e uma criança mais sensível talvez até chore. Já a simplicidade da história, que para mim é uma virtude, pode deixar outras pessoas com gostinho de quero mais: quem gosta de filme que diz e explica tudo vai sair com muitas perguntas em aberto.
Por que ele fica com você por dias?
Uma das grandes forças de Flow é não entregar uma lição pronta. Dá para ver o filme como uma parábola sobre o clima, como uma história sobre fuga, sobre união ou sobre aceitar o outro, e uma criança vai simplesmente curtir a aventura de um gato corajoso. Todas as leituras valem, e o filme não força nenhuma delas.
Eu me apaixonei porque ele mostra com muita clareza o que significa encontrar um lar no meio de estranhos quando o lar original já não existe. É um filme gentil, mas nada ingênuo. Triste e esperançoso ao mesmo tempo, e é por contradições assim que vale a pena ir ao cinema.
Para quem é?
- É para você se: Para quem ama gatos, para fãs de animação autoral e para famílias que querem uma ida ao cinema mais calma e que faça pensar. Quem curte os filmes do Studio Ghibli e A Tartaruga Vermelha tem obrigação de assistir.
- Melhor pular se: Para quem procura uma comédia animada agitada, barulhenta e cheia de piadas, e para crianças muito pequenas que se assustam com facilidade.
Se gostar, veja também: A Tartaruga Vermelha (2016), Robô Selvagem (2024), WALL·E (2008), A Viagem de Chihiro (2001)
Perguntas frequentes
Quando Flow estreou nos cinemas brasileiros?
Flow estreou no Brasil em 20 de fevereiro de 2025.
Sobre o que é Flow?
Sobre um gato solitário que é expulso de casa por uma grande enchente e encontra abrigo num barco com animais de outras espécies. Juntos, eles precisam se adaptar a um mundo transformado.
Quanto tempo dura Flow?
O filme tem 85 minutos de duração.
Dá para ver Flow com crianças?
Sim, mas algumas cenas tensas e de perigo podem assustar os menores, então vale a pena assistir junto com eles.
Quem dirigiu Flow?
O filme foi dirigido pelo letão Gints Zilbalodis, numa coprodução entre Letônia, Bélgica e França.
Qual é o título original de Flow?
O título original do filme é Straume.
Vale a pena embarcar nesse barco?
Sem dúvida. Flow é o tipo de animação que a gente vai lembrar daqui a muitos anos, porque conquista pela sinceridade, e não pelo volume. Gints Zilbalodis provou que um gato, um barco e um mundo inundado bastam para mexer com emoções mais profundas do que muita produção com o triplo do orçamento. Se puder, assista na tela grande, em silêncio, com atenção, e deixe o filme te levar. Para mim, é obrigatório.
