Le Chant des forêts, crítica antecipada: quando a busca por uma ave vira o silêncio compartilhado de três gerações
Tem filme que não é para ser visto, é para ser escutado. O novo documentário de Vincent Munier, Le Chant des forêts, já avisa pelo título que aqui o ouvido vai trabalhar tanto quanto os olhos. Juntei os motivos pelos quais estou tão ansioso por ele e também os pontos em que essa peregrinação silenciosa e nebulosa pela floresta pode tropeçar.
Tudo indica que pode ser uma das experiências de cinema mais bonitas e serenas da temporada, desde que você esteja disposto a desacelerar para entrar no ritmo dele.
Ficha do filme
| Direção | Vincent Munier |
|---|---|
| Gênero | Documentários |
| Duração | 93 min |
| País | Filmes franceses |
Do que se trata? Uma ave, uma floresta, três gerações
A premissa é simples, e é justamente isso que a torna bonita. Vincent Munier, fotógrafo de natureza e cineasta premiado, parte rumo às florestas envoltas em névoa dos Vosges, mas não sozinho: com ele vão o pai e o filho adolescente. Três gerações, uma mochila e muita paciência. O objetivo é encontrar uma espécie em desaparecimento, o tetraz-grande, e essa busca acaba levando o trio até a Noruega.
No caminho aparece tudo aquilo que faz alguém entrar numa floresta: cervos bramindo, corujas farfalhando, a força bruta e a beleza frágil da natureza ao mesmo tempo. Pela sinopse, não estamos diante de um documentário de divulgação científica tradicional, com narrador falando sem parar, e sim de uma viagem íntima e pessoal, cujo tema de verdade é como a atenção e o amor pela natureza passam de pai para filho, de avô para neto.
Confesso que foi esse lado familiar que mais me pegou. Documentário sobre aves a gente já viu aos montes, mas um em que a pessoa atrás da câmera está entre o próprio pai e o próprio filho, e a busca é, no fundo, a passagem de uma herança, é bem mais raro.
Quem é Vincent Munier e por que vale ficar de olho nele?
No mundo da fotografia de natureza, o nome Munier funciona quase como uma marca registrada. Quem conhece os trabalhos anteriores dele, em especial o filme de grande sucesso sobre a busca pelo leopardo-das-neves, sabe que esse cara consegue ficar horas, dias, imóvel esperando um único instante, e de algum jeito consegue transmitir essa paciência para o espectador. Com ele, a espera não é tempo morto, é a própria experiência.
Por isso é promissor que agora o cenário seja uma floresta francesa, ainda por cima uma paisagem ligada às raízes dele. Nada de picos exóticos: é névoa, pinheiro, folhas secas e silêncio. Se alguém consegue tirar desse material contido um cinema de tela grande, que respira, é ele. A própria sinopse diz que o filme foi pensado para a tela grande em cada quadro, e pela trajetória de Munier eu tendo a acreditar.
O som é o protagonista
O título não está ali por acaso, e acho que essa vai ser a maior arma do filme. A descrição destaca que Le Chant des forêts é uma experiência visual e acústica, um filme imersivo. Para mim, isso indica que a mixagem de som não é trabalho de bastidor, mas parte da própria dramaturgia.
Imagine: numa sala escura, com um bom sistema de som, ouvir um cervo bramindo em algum lugar no meio da névoa, ou as asas de uma coruja vibrando bem acima da sua cabeça. Isso simplesmente não se vive do mesmo jeito em casa, no alto-falante do notebook. E quem conhece o tetraz-grande sabe que ele é famoso pelo seu canto estranho e único, então tenho a impressão de que os grandes momentos do filme não vão chegar necessariamente pela imagem, mas pelo som.
Foi por isso que dei de antemão uma nota tão alta para o som. Quando um filme coloca a música no título e o diretor construiu toda a carreira em cima da atenção, a chance de essa parte funcionar é grande.
O que pode fazer dele um filme realmente bom?
- A lentidão como presente. Numa época em que tudo é triturado em vídeos de 15 segundos, um filme de 93 minutos, paciente e nebuloso, numa floresta, pode ter um efeito quase terapêutico.
- A dinâmica familiar. Três gerações juntas, procurando a mesma coisa. Tem nostalgia, despedida e transmissão ali, sem que ninguém precise explicar tudo mastigado.
- O que está em jogo. Trata-se de uma espécie em desaparecimento, então a busca tem peso de verdade. Não são só imagens bonitas, é também um alerta silencioso.
- A mudança de cenário. Depois dos Vosges, a Noruega: isso certamente renova o filme visualmente e dá um arco de aventura ao clima intimista.
Se tudo isso se encaixar, não vai ser só mais um filme de natureza entre tantos, e sim aquele tipo de cinema do qual a gente sai com vontade de desligar o celular e ir direto para a floresta mais próxima.
Onde ele pode tropeçar?
Eu não seria honesto se não dissesse: esse filme não vai ser para todo mundo. O maior risco dos filmes de natureza meditativos é que, para quem não entra na sintonia, 93 minutos podem parecer uma eternidade. Quem espera ação, cortes rápidos ou um arco dramático bem amarrado vai se decepcionar.
A outra questão é o quanto o filme vai conseguir equilibrar o lado pessoal e familiar com a natureza. Se tiver ave demais e gente de menos, pode se perder aquele núcleo humano e caloroso que torna a proposta especial. Se for o contrário, o filme pode perder a magia limpa e observadora que faz a gente gostar do trabalho de Munier. Por isso fui mais cauteloso na nota da história: em documentários baseados numa busca, muitas vezes quem carrega tudo nas costas não é a trama, é a atmosfera.
E tenho uma preocupação menor também: o tal "amor que passa de geração em geração" pode facilmente escorregar para o melado. Espero que Munier mantenha aqui a contenção que sempre deixa as imagens dele tão verdadeiras.
Por que não deixar para ver em casa?
Este é um filme feito de propósito para o cinema. A sinopse reforça que ele foi pensado para a tela grande em cada quadro e que a experiência sonora imersiva é a essência dele. Claro que dá para assistir depois no streaming, mas ali se perde justamente o que faz valer a pena reservar um tempo para ele: a sala escura, o silêncio, o som que envolve você.
Numa noite fria e cinzenta, de preferência daquelas em que dá vontade de se esconder do mundo, um filme assim pode ser a companhia perfeita. Da minha parte, já estou com ele na agenda.
Para quem é?
- É para você se: Para fotógrafos de natureza, observadores de aves, fãs de documentários lentos e meditativos e para qualquer pessoa que gostaria de ver um filme bonito e familiar com os pais ou com o filho adolescente.
- Melhor pular se: Quem espera ritmo acelerado, documentário didático com narrador ou trama dramática bem amarrada provavelmente vai perder a paciência com este filme.
Se gostar, veja também: Migração Alada (2001), Microcosmos (1996), Oceanos (2009), A Marcha dos Pinguins (2005)
Perguntas frequentes
Sobre o que é Le Chant des forêts?
O fotógrafo de natureza e cineasta Vincent Munier percorre as florestas enevoadas dos Vosges ao lado do pai e do filho adolescente para encontrar o tetraz-grande, uma espécie em desaparecimento. A busca acaba levando os três até a Noruega.
Qual é a duração de Le Chant des forêts?
O filme tem 93 minutos.
Quem dirigiu Le Chant des forêts?
A direção é de Vincent Munier, premiado fotógrafo de natureza e cineasta francês, que também aparece no filme.
Qual é o gênero de Le Chant des forêts?
É um documentário francês que aposta na experiência visual e sonora e foi feito especialmente para a tela grande.
Vale reservar uma noite para ouvir a floresta no cinema?
Acho que sim, mas só se você entrar na sala com boa vontade e ouvidos abertos. No papel, Le Chant des forêts traz tudo o que faz um filme de natureza ser mais do que um cartão-postal bonito: algo pessoal em jogo, uma busca de verdade por uma ave que está sumindo e um diretor capaz de transformar paciência em arte. Se o lado familiar e os sons da natureza selvagem se encontrarem, este pode ser uma das experiências de cinema mais íntimas do ano. Eu estou esperando, e sugiro que você também escolha uma sala com um bom sistema de som. Este filme você não vai guardar com os olhos, vai guardar com os ouvidos.
