Resident Evil crítica: Zach Cregger tranca o pesadelo numa única noite de inverno e não solta a nossa mão
Um carro quebrado, uma casa iluminada à beira da estrada, uma batida na porta: é a receita mais antiga do terror, e Zach Cregger sabe exatamente como explodi-la. O novo Resident Evil não resgata o ritmo de metralhadora dos filmes antigos. Traz algo bem mais incômodo: aquela sensação de não fazer ideia do que está acontecendo, mas saber que é preciso correr. E essa confusão é a maior arma do filme.
Um terror caótico, nervoso e surpreendentemente pessoal, que finalmente trata o nome Resident Evil como algo feito para assustar, e não só para faturar.
Ficha do filme
| Estreia no Brasil | 17/09/2026 |
|---|---|
| Direção | Zach Cregger |
| Elenco | Paul Walter Hauser, Austin Abrams, Kali Reis, Zach Cherry, Johnno Wilson |
| Gênero | Filmes de terror |
| Classificação | 18 |
| País | Filmes americanos |
Um entregador, uma casa e uma noite muito ruim
O ponto de partida é quase ridículo de tão simples, e é justamente por isso que funciona. Bryan trabalha como entregador de material médico. Numa noite de inverno, o carro dele morre no meio da estrada e ele bate na porta de uma casa para pedir o telefone emprestado. Só isso. Nada de montagem inicial sobre laboratórios secretos, nada de longas explicações sobre corporações malignas, nada de heroína que já sabe sua missão no primeiro minuto. Temos um cara comum, no lugar errado e na hora errada, que em vez de ajuda encontra algo completamente diferente.
A partir daí, o filme vira uma única noite longa, confusa e mergulhada no caos absoluto. Bryan não entende por que foi escolhido, por que está sendo perseguido nem como foi parar nessa enrascada, e o espectador passa um bom tempo no mesmo barco. É uma decisão ousada para uma franquia cujos fãs costumam querer saber tim tim por tim tim o que rola nos bastidores. Cregger, porém, prefere entregar a experiência no lugar das respostas, e eu aplaudo de pé.
Não vou dar spoilers, claro, mas adianto uma coisa: se você espera a solução do mistério na primeira meia hora, vai se frustrar. Agora, se topar se deixar levar, o filme impõe um ritmo que raramente se vê no terror de grande estúdio hoje em dia.
Zach Cregger, o novo bagunceiro favorito do terror
Quem viu Noites Brutais sabe que Cregger adora brincar com as expectativas do público. Ali, ele transformou uma casa alugada num labirinto que fez muita gente olhar desconfiada para o próprio porão por dias. Com A Hora do Mal, mostrou que consegue ser assustador e divertido ao mesmo tempo numa tela maior e com mais personagens. Nas mãos dele, Resident Evil deixa de ser mais um produto de marca e vira um parquinho de diretor.
O que ele tem de mais forte é o ritmo. Cregger sabe quando esticar uma cena até o constrangimento e quando pisar fundo de repente. Aqui o pé está colado no acelerador: os horrores ditam uma velocidade absurda, e esse embalo arrasta a gente durante boa parte do filme. Em alguns momentos tive a impressão de estar dentro de um pesadelo em que a lógica só funciona pela metade e qualquer coisa pode estar atrás da próxima porta.
Por outro lado, esse tipo de montagem não vai agradar a todo mundo. Cregger não segura a mão do espectador, não explica demais, e quem procura pontos de apoio pode se perder fácil. Para mim isso é uma virtude, mas entendo quem ache cansativo.
Paul Walter Hauser, o herói de terror mais improvável
Paul Walter Hauser não é o nome que vem à cabeça para protagonizar uma franquia de zumbis, e é exatamente por isso que a escolha é genial. Desde O Caso Richard Jewell sabemos que ele é craque em viver o sujeito comum jogado pelas circunstâncias numa situação para a qual nada o preparou. Aqui ele toca o mesmo instrumento, só que numa melodia bem mais sombria.
Bryan não é herói de ação, não é soldado de elite, não é o escolhido. É um entregador que só queria fazer uma ligação. Hauser torna crível cada ataque de pânico, cada decisão desesperada, e isso deixa o medo do filme mais real. Quando uma figura no estilo Milla Jovovich sai atirando, a gente torce junto. Quando o Bryan de Hauser sai correndo, a gente sente o pavor junto.
No elenco de apoio estão Austin Abrams, Kali Reis, Zach Cherry e Johnno Wilson. Zach Cherry é uma escolha especialmente certeira para um filme assim, porque tem um raro instinto para deixar seus personagens humanos mesmo sob pressão. O elenco como um todo é formado mais por atores de personagem do que por estrelas, e isso joga a favor do filme: você nunca sabe de antemão quem vai sobreviver.
O que isso tem a ver com os Resident Evil antigos?
Essa é a grande pergunta, e sendo sincero: no clima, não muito. A série iniciada por Paul W. S. Anderson foi pendendo cada vez mais para a ação estilizada, e para muita gente acabou representando o lado leve e pipoca das adaptações de games. A versão de Cregger é uma releitura dos lendários filmes de Resident Evil e leva isso a sério: devolve a marca ao terror, que na minha opinião sempre foi o lugar dela.
Uma das maiores forças dos videogames originais era prender o jogador num lugar estranho e hostil, onde cada canto era uma ameaça e você não entendia o que estava acontecendo. Essa sensação aparece aqui muito mais do que na maioria dos filmes anteriores. Quem sente falta dos corredores de laser e das lutas em câmera lenta da antiga fase do cinema provavelmente vai estranhar. Mas quem sentia falta do medo finalmente vai ser atendido.
De qualquer forma, não é preciso conhecer nada da franquia para curtir o filme: a história parte do ponto de vista de Bryan, que também não sabe de nada, então quem chega totalmente novo está exatamente no mesmo lugar que o protagonista.
Quando o caos passa do ponto
Eu estaria mentindo se dissesse que tudo está no lugar. A maior força do filme, a confusão e o ritmo, às vezes vira também sua fraqueza. Há momentos em que a correria dificulta acompanhar quem é quem e por que importa, e parte dos personagens simplesmente não ganha tempo suficiente para ficar na memória.
O outro risco é o peso da franquia. Uma releitura precisa falar ao mesmo tempo com os fãs antigos e com o público novo, e essa expectativa dupla às vezes puxa o filme visivelmente para dois lados. A voz própria de Cregger continua forte, mas de vez em quando dá para perceber que ele trabalha dentro dos limites de uma grande marca de estúdio, e não num projeto original e totalmente livre.
Ainda assim, são mais arranhões do que feridas graves. E vale o aviso: o filme não alivia em nada, e quem se acostumou com os terrores amaciados e pensados para adolescentes dos últimos anos pode levar um susto.
Para quem é?
- É para você se: Para quem gostou de Noites Brutais ou A Hora do Mal, e para os fãs antigos de Resident Evil que queriam ver de volta nas telas o terror sufocante dos games. Se você aguenta ritmo acelerado e cenas pesadas, este filme é para você.
- Melhor pular se: Se você espera a ação estilizada dos filmes antigos, a heroína à la Milla Jovovich e explicações bem amarradinhas, vai se decepcionar. Também não é para estômagos fracos nem para crianças.
Se gostar, veja também: Noites Brutais (2022), A Hora do Mal (2025), Resident Evil: O Hóspede Maldito (2002), Extermínio (2002), O Homem nas Trevas (2016)
Perguntas frequentes
Quando Resident Evil estreou nos cinemas do Brasil?
O filme estreou nos cinemas brasileiros em 17 de setembro de 2026.
Sobre o que é o novo Resident Evil?
A história gira em torno de Bryan, um entregador de material médico cujo carro quebra numa noite de inverno. Ele bate na porta de uma casa à beira da estrada atrás de ajuda, mas encontra algo bem diferente e passa uma noite caótica lutando pela própria vida, sem saber por que justamente ele está sendo perseguido.
Quem dirigiu o novo Resident Evil?
O filme foi dirigido por Zach Cregger, que ganhou fama com os terrores Noites Brutais e A Hora do Mal.
Quem está no elenco do novo Resident Evil?
O protagonista é Paul Walter Hauser, acompanhado por Austin Abrams, Kali Reis, Zach Cherry e Johnno Wilson.
É preciso conhecer os filmes antigos de Resident Evil?
Não. O filme é uma releitura da lendária franquia e a história parte do ponto de vista de um protagonista que não sabe de nada, então dá para acompanhar tudo sem nenhum conhecimento prévio.
Vale a pena bater na porta dessa casa?
Vale, e de preferência no cinema, no escuro, com um som caprichado. Resident Evil passou muito tempo sendo aquela franquia que a gente tratava com um dar de ombros: divertida, mas esquecível. Zach Cregger fez o que os fãs pediam havia anos: levou o medo a sério. E o jeitão desajeitado e comum de Paul Walter Hauser dá ao caos um núcleo tão humano que tudo dói muito mais. Não é perfeito, às vezes abraça demais e corre rápido demais, mas no terror de hoje é raro ver um filme tão corajoso, nervoso e vivo. Se o Bryan bater na sua porta, abra. Só não diga depois que eu não avisei.
