Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore, crítica: o mundo bruxo enfim fala de política, mas os animais se perderam no caminho
Não é sempre que aparece um filme em que o vilão é tão contido e, justamente por isso, mais assustador do que qualquer show de efeitos. Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore é o capítulo mais adulto e mais político da franquia, e Mads Mikkelsen e Jude Law formam uma dupla que por si só já vale o ingresso. Pena que, no meio do caminho, o roteiro esquece de quem o título deveria falar.
Elenco forte, visual deslumbrante e um conflito central instigante, mas uma história dispersa e abarrotada impede o filme de ser realmente memorável.
Ficha do filme
| Original | Fantastic Beasts: The Secrets of Dumbledore |
|---|---|
| Estreia no Brasil | 14/04/2022 |
| Direção | David Yates |
| Elenco | Eddie Redmayne, Jude Law, Mads Mikkelsen, Ezra Miller, Dan Fogler, Alison Sudol |
| Gênero | Filmes de fantasia, Filmes de aventura |
| Duração | 142 min |
| Classificação | 10 |
| País | Filmes britânicos, Filmes americanos |
Do que se trata? Uma equipe, uma missão e um vilão muito paciente
Sem spoilers, a premissa é simples: Alvo Dumbledore pede ajuda ao seu antigo aluno Newt Scamander, porque Gellert Grindelwald está se preparando para tomar o poder sobre o mundo bruxo. Newt aceita liderar um grupo bem heterogêneo: bruxos, bruxas e o coração secreto da franquia, o padeiro trouxa Jacob Kowalski, partem numa missão perigosa. No caminho, eles cruzam com criaturas antigas e novas e enfrentam o número cada vez maior de seguidores de Grindelwald.
É basicamente isso, e, para ser sincero, o próprio filme também não faz muita questão de revelar mais na primeira meia hora. Ao longo dos 142 minutos, várias tramas correm em paralelo, e nem todas chegam aonde prometiam. Quem esperava que, depois dos filmes anteriores, o quadro geral finalmente se encaixasse aqui vai sair em parte satisfeito e em parte com aquela sensação de que faltou alguma coisa.
Jude Law e Mads Mikkelsen: viemos por causa desses dois
Vamos começar pelo melhor. Jude Law entrega exatamente o que se espera de um Dumbledore mais jovem e ainda vulnerável: tem sabedoria, ironia e uma culpa cansada que dá peso a cada cena em que aparece. Não é o mentor de barba branca que sabe tudo, e sim um homem que vive sendo alcançado pelo próprio passado.
Já o Grindelwald de Mads Mikkelsen é puro carisma frio e calculado. Desde a série Hannibal e Cassino Royale, Mikkelsen sabe fazer pouco e mesmo assim dominar a tela. Aqui ele também não grita nem faz pose: prefere convencer em silêncio, e esse tipo de vilão assusta muito mais do que qualquer demônio rosnando. A tensão entre os dois rende os melhores momentos do filme, e confesso que eu assistiria a um longa inteiro só com eles.
Ao mesmo tempo, essa dupla é também a maior contradição do filme: em tese, a franquia é sobre os animais fantásticos e sobre Newt, mas o drama gira claramente em torno de Dumbledore e Grindelwald. Pelo menos o título é honesto.
Newt, Jacob e companhia: a turma que a gente adora, mas que recebe pouco espaço
Eddie Redmayne continua encantadoramente desajeitado como Newt Scamander, um papel que parece feito sob medida para ele. O vencedor do Oscar por A Teoria de Tudo trabalha aqui em outro registro: tímido, evitando contato visual, só realmente à vontade no meio das suas criaturas. Continua sendo cativante, mas o filme quer abraçar tanta coisa ao mesmo tempo que Newt às vezes vira coadjuvante da própria história.
Dan Fogler, como Jacob Kowalski, é mais uma vez o personagem com quem o público se conecta mais fácil. O padeiro trouxa é a figura através da qual a magia ainda parece um milagre, e Fogler vende isso com carinho, humor e uma dose surpreendente de coração. Para mim, ele é a âncora emocional do filme.
Ao lado deles está Callum Turner como Teseu Scamander, que convence como o irmão mais velho confiável e um tanto rígido, e Jessica Williams como Lally Hicks, um sopro de ar fresco: segura, espirituosa, e dava vontade de vê-la mais. A Queenie Goldstein de Alison Sudol e o Credence (Aurelius Dumbledore) de Ezra Miller são personagens cujas tramas deveriam ser importantes, mas que na prática mais estão presentes do que realmente se desenvolvem.
David Yates de novo: experiência, visual caprichado e um certo cansaço
David Yates dirigiu os quatro últimos filmes de Harry Potter e depois todos os três Animais Fantásticos até aqui, ou seja, seria difícil encontrar alguém com mais experiência nesse universo. E isso aparece: tecnicamente o filme é seguro, as cenas de magia são elegantes, cenários e figurinos são ricos, e o clima é sombrio na medida certa para um mundo à beira da guerra.
Por outro lado, dá para sentir um certo piloto automático. Yates sabe fazer imagens bonitas, mas o ritmo tropeça em vários momentos, as transições entre cenas costumam ser bruscas e os 142 minutos às vezes parecem mais longos do que são. Tem horas em que um diálogo ótimo e tenso é interrompido por uma cena de ação que parece obrigatória, e aí fica a impressão de que o filme não confia o bastante nos próprios pontos fortes.
A trilha e o som são muito bons: os temas clássicos voltam, e o filme aperta o botão da nostalgia com habilidade, mas nem sempre isso consegue disfarçar quando falta conteúdo por trás de uma cena.
O que funciona e onde a coisa desanda?
O que funciona:
- A camada política. A trama em torno de Grindelwald fala de poder, manipulação e de como se convencem multidões. É a ideia mais adulta da franquia, e soa surpreendentemente atual.
- O elenco. O trio Law, Mikkelsen e Fogler carrega o filme nas costas.
- Os animais. Quando o filme finalmente lembra do próprio título, o design das criaturas é lindo, e nessas cenas a magia do primeiro filme volta.
O que funciona menos:
- O excesso. Personagens demais, subtramas demais, e várias delas se apagam até o final.
- As criaturas do título em segundo plano. Quem se apaixonou pela franquia por causa do Newt aventureiro e cheio de encantamento recebe menos aqui.
- O retorno emocional. Muita coisa é preparada, mas pouca bate com a força que deveria.
Onde ele fica dentro da franquia?
O primeiro, Animais Fantásticos e Onde Habitam, de 2016, era uma aventura leve e charmosa pelas ruas de Nova York. O segundo, Os Crimes de Grindelwald, ficou mais sombrio e complicado, confuso demais na opinião de muita gente. Os Segredos de Dumbledore fica num meio-termo: mais sério e mais redondo que o anterior, mas sem conseguir recuperar a leveza do primeiro.
Vale saber que ver este filme sozinho não é a melhor ideia. As relações entre os personagens, a história de Credence e as escolhas de Queenie significam muito mais para quem viu os anteriores. Já os fãs de Harry Potter vão curtir alguns lugares e motivos conhecidos; não vou entregar quais, mas o fator nostalgia é forte.
Para quem é?
- É para você se: Para quem ama o mundo bruxo e tem curiosidade pela história de Dumbledore e Grindelwald, e para qualquer um que veria qualquer coisa só por Mads Mikkelsen e Jude Law.
- Melhor pular se: Para quem quer a aventura leve e centrada nos animais do primeiro filme, ou não tem paciência para uma fantasia mais lenta, falada e política.
Se gostar, veja também: Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016), Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald (2018), Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 (2011), A Bússola de Ouro (2007), As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (2005)
Perguntas frequentes
Quando Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore estreou no Brasil?
O filme chegou aos cinemas brasileiros em 14 de abril de 2022.
Qual a duração de Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore?
O filme tem 142 minutos.
Do que trata Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore?
Alvo Dumbledore pede a ajuda do seu antigo aluno Newt Scamander para frustrar os planos de Grindelwald de tomar o poder. Newt lidera uma equipe de bruxos, bruxas e um padeiro trouxa numa missão perigosa.
Quem dirigiu o filme e quem está no elenco principal?
A direção é de David Yates. No elenco principal estão Eddie Redmayne, Jude Law, Mads Mikkelsen, Ezra Miller, Dan Fogler, Alison Sudol, Callum Turner e Jessica Williams.
Quem interpreta Grindelwald em Os Segredos de Dumbledore?
Neste filme, Gellert Grindelwald é interpretado por Mads Mikkelsen.
Vale a pena voltar ao mundo bruxo?
Vale, mas não de braços abertos, e sim com um pouco de cautela. Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore é melhor que o antecessor e tem algumas cenas, principalmente os momentos de Jude Law e Mads Mikkelsen juntos, que estão entre os pontos altos de toda a franquia. O visual é rico, o clima é sério, e o Jacob de Dan Fogler continua capaz de aquecer o coração.
Ainda assim, é difícil não sentir que estamos vendo uma história dispersa, que nunca decide se quer ser a aventura de Newt, o drama de Dumbledore ou um thriller político. Quem gosta desse universo vai encontrar motivos de sobra para sorrir, mas quem procura a magia de verdade vai achar este capítulo correto, porém esquecível. Um mediano forte, com alguns lampejos realmente memoráveis.
