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Crítica · Estreia: 05/08/2005

A Ilha crítica: a utopia de Michael Bay em que fugir importa mais do que pensar

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Tem aquele momento em que uma ficção científica levanta uma pergunta interessante, e aí chega Michael Bay e explode a pergunta. A Ilha é exatamente esse tipo de filme: a primeira hora é uma distopia surpreendentemente fria e inquietante, e depois tudo vira uma perseguição brilhante, barulhenta e cheia de metal. Por isso o filme irrita e diverte ao mesmo tempo, e é justamente por isso que vale revê-lo vinte anos depois.

7,2/10
Nota
Premissa esperta, primeiro ato inesquecível e cenas de ação de cair o queixo, mas a segunda metade confia mais na pirotecnia do que no próprio tema.
História
6
Atuação
7
Direção
7
Visual
9
Música e som
8
Emoção
6

A nota geral é a média dos seis critérios.

Ficha do filme

OriginalThe Island
Estreia no Brasil05/08/2005
DireçãoMichael Bay
ElencoEwan McGregor, Scarlett Johansson, Djimon Hounsou, Sean Bean, Steve Buscemi, Michael Clarke Duncan
GêneroFilmes de ação, Thrillers, Filmes de ficção científica
Duração136 min
Classificação14
PaísFilmes americanos

Roupas brancas, corredores estéreis e uma promessa

Sem spoilers: Lincoln 6-Echo e Jordan-2 Delta vivem num complexo fechado e rigidamente controlado, ao lado de centenas de outras pessoas. Todo mundo espera a mesma coisa: ser sorteado para ir à Ilha, que, segundo a história contada ali dentro, é o último lugar habitável da Terra. Essa loteria alimenta a esperança da comunidade, dá sentido ao dia a dia e, claro, funciona como a ferramenta de controle mais confortável que existe.

Só que Lincoln começa a fazer perguntas. Ele descobre que tudo o que achava saber sobre si mesmo e sobre o mundo é mentira, e que a história da Ilha é a enganação mais cruel de todas. Quando fica claro que eles valem mais mortos do que vivos, Lincoln e Jordan fogem. Não conto mais do que isso, porque a grande força do primeiro terço do filme está justamente no jeito como ele vai pingando a desconfiança aos poucos.

O ponto de partida é herança clássica da ficção científica: uma sociedade fechada, aparentemente perfeita, cujas rachaduras só um sujeito curioso percebe. É um motivo conhecido, mas funciona bem, e no começo o filme tem algo realmente sufocante.

Ewan McGregor e Scarlett Johansson: duas almas ingênuas no moedor

Ewan McGregor é uma escolha certeira para Lincoln. Ele tem uma curiosidade quase infantil, um olhar tímido e limpo que nos faz acreditar que aquele homem nunca viu o mundo de verdade. Depois de Trainspotting e da trilogia prelúdio de Star Wars, ele mostra aqui uma faceta bem diferente: menos descolado, muito mais vulnerável.

Scarlett Johansson recebe um pouco menos de material como Jordan, mas a presença dela continua forte. Ela estava em plena ascensão na carreira, e isso aparece na tela: a câmera a adora, e ela sabe dar peso a pequenos gestos mesmo quando o roteiro só a faz correr de uma explosão para a outra.

O elenco de apoio é impressionante. Sean Bean, como o Dr. Bernard Merrick, é de uma cortesia gelada e tão pouco confiável quanto se espera de um personagem do Sean Bean. O Albert Laurent de Djimon Hounsou é disciplinado e duro, e acaba se revelando surpreendentemente complexo. Steve Buscemi, como James 'Mac' McCord, é a melhor válvula de escape cômica do filme: cada fala dele é um sopro de ar fresco no meio daqueles cenários assépticos. Michael Clarke Duncan aparece num papel curto, mas marcante, como Starkweather, e ninguém consegue arrancar tanta humanidade de uma cena em tão pouco tempo.

Michael Bay, o homem que não sabe desacelerar

Michael Bay dispensa apresentações: depois de A Rocha, Armageddon e Bad Boys, todo mundo sabe o que vai receber dele. Cores saturadas, câmera em movimento constante, metal, vidro, faísca, câmera lenta. O curioso em A Ilha é que, na primeira hora, o diretor parece se segurar. As cenas dentro do complexo são frias, quase clínicas, e isso combina com o tema: os uniformes brancos, a dieta controlada e o sistema que vigia tudo criam um clima distópico de verdade.

Aí vem a fuga, e Bay solta o freio. A partir dali, o filme muda de gênero: perseguição em rodovia, peças voando para todo lado, destruição em escala absurda. Tecnicamente, essas sequências são impressionantes, e várias vezes o queixo cai literalmente. O problema é que, no meio de tudo isso, a gente esquece o que o filme queria dizer lá no começo.

Onde o filme realmente decola

Onde o fôlego acaba

O problema é que os 136 minutos são mal distribuídos. O filme levanta questões filosóficas e, em vez de desenvolvê-las, empurra tudo para o lado com mais uma cena de ação, e depois outra. O dilema ético que move a primeira hora vira, na segunda metade, mais um ruído de fundo, resgatado de vez em quando numa ou outra fala.

Além disso, o tom oscila: da distopia fria e reflexiva o filme pula de repente para uma estética barulhenta, reluzente e, em alguns momentos, quase de comercial. Quem se incomoda com isso pode achar o segundo ato cansativo. Quem não se incomoda leva um filme ágil, muito bem executado, que não deixa a atenção cair nem por um segundo.

Vinte anos depois: como o filme envelheceu?

Surpreendentemente bem. A mistura de efeitos digitais com destruição prática ainda convence, e o visual do filme, que contrapõe o futuro estéril a um mundo exterior real, empoeirado e barulhento, é uma ideia visual muito forte. E o tema, quanto vale uma vida humana quando ela dá lucro para alguém, ficou mais afiado, não mais cego.

Curiosamente, A Ilha está entre os poucos filmes de Bay que, numa revisão, a gente não lembra só pela ação. Existe ali a marca de um filme melhor e mais inteligente, que de vez em quando aparece através da fumaça das explosões. É essa marca que o mantém interessante até hoje.

Para quem é?

Se gostar, veja também: Gattaca: A Experiência Genética (1997), Fuga no Século 23 (1976), Minority Report: A Nova Lei (2002), Não Me Abandone Jamais (2010), A Rocha (1996)

Perguntas frequentes

Sobre o que é o filme A Ilha?

Lincoln 6-Echo e Jordan-2 Delta vivem num complexo rigidamente controlado e torcem para ser escolhidos para ir à Ilha, o último lugar habitável da Terra. Lincoln descobre que tudo é mentira e, quando fica claro que eles valem mais mortos do que vivos, foge com Jordan.

Quanto tempo dura A Ilha?

O filme tem 136 minutos.

Quem dirigiu A Ilha?

O filme foi dirigido por Michael Bay.

Quando A Ilha estreou no Brasil?

O filme estreou nos cinemas brasileiros em 5 de agosto de 2005.

Quem está no elenco de A Ilha?

Os protagonistas são Ewan McGregor e Scarlett Johansson, e o elenco ainda conta com Djimon Hounsou, Sean Bean, Steve Buscemi e Michael Clarke Duncan.

Você embarca com Lincoln nessa fuga?

Sim, mas saiba onde está entrando. A Ilha é uma distopia que começa muito bem e que, no meio do caminho, decide que prefere ser filme de ação, e Michael Bay executa essa decisão com força total. Se numa noite tranquila você estiver a fim de uma ficção científica ágil, espetacular e, apesar de tudo, capaz de provocar alguma reflexão, dá para escolher coisa muito pior. Só não espere que o final seja tão inteligente quanto o começo. Minha nota: 7/10, e um ponto inteiro disso é do Steve Buscemi.

Nota: 7,2/10 · História 6 · Atuação 7 · Direção 7 · Visual 9 · Música e som 8 · Emoção 6