Coyote vs. Acme crítica: o Coiote finalmente vai aos tribunais, e a gente está lá na plateia
Quantas bigornas já caíram na cabeça desse coitado até alguém ter a ideia de que aquilo talvez fosse um caso de defesa do consumidor? Coyote vs. Acme constrói um filme inteiro em cima dessa pergunta e, para a surpresa de muita gente, não fica só na piada. O filme de Dave Green é ao mesmo tempo uma vingança maluca de desenho animado e uma fábula estranhamente tocante sobre o que acontece quando o perdedor finalmente abre a boca.
Uma comédia espirituosa, carinhosa e surpreendentemente emocionante, que transforma a piada mais antiga dos Looney Tunes num filme que funciona, mesmo que o fôlego às vezes acabe na segunda metade.
Ficha do filme
| Estreia no Brasil | 27/08/2026 |
|---|---|
| Direção | Dave Green |
| Elenco | John Cena, Lana Condor, Will Forte, P.J. Byrne, Nancy Linehan Charles |
| Gênero | Filmes de aventura, Filmes de animação |
| Duração | 103 min |
| Classificação | 10 |
| País | Filmes americanos |
Sobre o que é? Um coiote que não aguenta mais
A premissa é tão simples que dá até para estranhar que ninguém tenha feito isso antes. Os produtos da megacorporação ACME, dos patins com foguete à supercola, deixam o Coiote na mão (e quase sempre estatelado no chão) enquanto ele tenta, sem descanso, pegar o Papa-Léguas. Há décadas é esse o trabalho dele, e há décadas tudo termina do mesmo jeito: uma explosão, uma queda e uma nuvenzinha de poeira lá no fundo do desfiladeiro.
Só que um dia o Coiote chega ao limite. Ele procura aquele advogado que sorri para ele de um outdoor e o contrata para entrar com um processo contra a ACME. A briga é inglória, e o filme não esconde isso nem por um minuto: de um lado, um personagem de desenho; do outro, uma corporação gigantesca. No meio do caminho, a gente descobre um lado desconhecido do Coiote e ganha uma espiadinha nos bastidores, no dia a dia nada invejável dos personagens animados.
Não quero contar mais nada da trama, porque o grande prazer do filme está justamente em levar essa ideia absurda a sério. E ele leva a sério, e é exatamente por isso que é engraçado.
O perdedor mudo que finalmente ganha voz
Quem cresceu vendo Looney Tunes lembra como era esquisito torcer pelo Coiote. Ele era a perseverança em pessoa: nunca desistia, sempre encomendava mais uma caixa, sempre desenhava mais um plano. E sempre se dava mal. Enquanto isso, o Papa-Léguas sumia na poeira soltando um bip-bip.
A melhor sacada de Coyote vs. Acme é resgatar esse senso de justiça antigo, que mora meio escondido dentro de todo mundo. Finalmente alguém diz que isso não é justo. O filme não ridiculariza o Coiote; fica do lado dele, e isso coloca embaixo da pancadaria uma camada surpreendentemente humana. Tem algo muito atual e muito agridoce em ver o pequeno (no caso, o pequeno coiote) encarar uma megacorporação sabendo que as chances dele são mais ou menos do tamanho da confiabilidade de um foguete da ACME.
Esse é o coração do filme, e esse coração bate. Sem forçar a barra, sem trilha sonora melosa arrancando lágrima, mas do jeito que as boas comédias para a família fazem: no meio das piadas, de repente você se pega torcendo de verdade.
John Cena e companhia: gente de carne e osso no tribunal dos desenhos
O elenco reúne John Cena, Lana Condor, Will Forte, P.J. Byrne e Nancy Linehan Charles, e só pela lista já dá para ver que a aposta aqui é na comédia. Nos últimos anos, Cena provou que por trás dos músculos de lutador existe um ótimo timing cômico: ele ri de si mesmo, não tem medo de pagar mico, e é exatamente disso que um filme precisa quando o parceiro de cena é um coiote desenhado.
Will Forte também está em casa com personagens meio pirados, meio patéticos, mas que de algum jeito a gente acaba gostando, e Lana Condor traz uma presença leve e simpática. O resultado é bom: dá para ver que os atores estão se divertindo e não olham o material de cima. Isso importa, porque se alguém num filme desses dá aquela piscadinha de "olha como isso tudo é infantil", a mágica desaba na hora.
Nem todo coadjuvante tem material suficiente, e alguns estão ali mais como função do que como personagem, mas as linhas principais se sustentam.
A direção de Dave Green: caos, mas sob controle
Dave Green precisou encontrar um equilíbrio delicado. De um lado, ser fiel ao humor físico implacavelmente preciso dos desenhos clássicos, em que uma pausa bem calculada vale mais do que qualquer trocadilho. Do outro, expandir esse universo numa história de longa-metragem, com 103 minutos, arco, algo em jogo e emoção.
Na primeira metade, tiro o chapéu. As gags são rápidas, o humor visual acerta e fica claro que o filme conhece e ama a sua origem. A parte do tribunal também diverte mais do que se esperaria: o choque entre o processo jurídico e a lógica de desenho animado é um prato cheio, e Green sabe aproveitar. Na segunda metade, porém, dá para sentir que a história precisa ficar "maior", e às vezes se perde aquele humor preciso e minimalista que tornou os episódios antigos lendários. Não chega a ser grave, mas dá para notar.
O que funciona e onde o filme tropeça?
O que funciona muito bem:
- A ideia central. Genialmente simples, e o filme não foge dela: leva até o fim.
- A vida dos personagens nos bastidores. Os melhores momentos são aqueles em que espiamos o cotidiano nada invejável dos personagens. Essa camada metalinguística é esperta e, em alguns trechos, bem melancólica.
- O Coiote como protagonista. Patético, teimoso, adorável. Exatamente como a gente sempre sentiu que ele era.
- O visual. Colorido, cheio de energia e respeitoso com o estilo clássico da animação.
Onde tropeça:
- O ritmo perto do final. 103 minutos é um pouquinho demais para esse material; uma ou duas cenas poderiam ter sido cortadas sem dó.
- A questão do público. O filme às vezes não decide se fala com as crianças pequenas ou com os adultos nostálgicos. Não é aquele típico "senta o filho de seis anos na frente da TV e pronto".
- Previsibilidade. A dramaturgia do pequeno contra a grande empresa segue um caminho conhecido, e isso às vezes pesa.
Por que é importante que esse filme exista?
Nos últimos anos, uma enxurrada de franquias clássicas de desenho ganhou versões "modernas" e, sendo sincero, a maioria foi esquecível. Esses filmes muitas vezes tratavam a obra original como uma marca a ser vendida. Coyote vs. Acme, ao contrário, faz uma pergunta aos próprios personagens: e se essas figuras realmente sentirem alguma coisa? E se o Coiote não for só uma máquina de gags?
É isso que faz dele mais do que mais um produto de nostalgia. Não é revolucionário nem o ápice do gênero, mas tem algo a dizer e diz com inteligência e carinho. E, ironicamente, estamos falando de um filme sobre produtos de uma grande corporação que se rebela contra a engrenagem corporativa. Difícil não curtir isso.
Para quem é?
- É para você se: Para todo mundo que cresceu com Looney Tunes e, no fundo, sempre torceu pelo Coiote. Para adolescentes e adultos que gostam de comédias criativas, um pouco metalinguísticas e um pouco agridoces.
- Melhor pular se: Para quem espera um desenho infantil frenético, com explosão a cada minuto, para levar os pequenos, e para quem já tem alergia a filmes de franquia que vivem de nostalgia.
Se gostar, veja também: Uma Cilada para Roger Rabbit (1988), Looney Tunes: De Volta à Ação (2003), Space Jam: O Jogo do Século (1996), Uma Aventura LEGO (2014)
Perguntas frequentes
Quando Coyote vs. Acme estreou no Brasil?
O filme estreou nos cinemas brasileiros em 27 de agosto de 2026.
Sobre o que é Coyote vs. Acme?
O Coiote vive sendo deixado na mão pelos produtos da megacorporação ACME enquanto persegue o Papa-Léguas. Um dia ele chega ao limite e, com a ajuda de um advogado que conheceu por um outdoor, entra com um processo contra a ACME.
Qual é a duração de Coyote vs. Acme?
O filme tem 103 minutos.
Quem dirigiu Coyote vs. Acme?
A direção é de Dave Green.
Quem está no elenco do filme?
O elenco conta com John Cena, Lana Condor, Will Forte, P.J. Byrne e Nancy Linehan Charles.
Vale a pena assistir ao julgamento do Coiote?
Vale, e não só pela nostalgia. Coyote vs. Acme é aquele caso raro em que uma piada antiga de desenho vira um filme de verdade, e não apenas um comercial esticado. Tem humor, tem coração e tem algo gostosamente rebelde em ver o maior perdedor do mundo finalmente revidar. A segunda metade dá uma arrastada e o filme nem sempre acerta o público, mas esses defeitos ficam pequenos diante do prazer de, depois de décadas, finalmente estar do lado do Coiote. No tribunal, eu sento na fileira dele. E levem um guarda-chuva da ACME, vai que em vez de chuva caia uma bigorna.
