O Chamado da Floresta, crítica: Harrison Ford e um cachorro que aprende a ser dono do próprio nariz
Tem um cachorro que o destino arranca da varanda confortável na Califórnia e joga direto nas nevascas do Yukon, e, para ser bem sincero, o filme deve tudo a ele. O Chamado da Floresta é uma aventura à moda antiga, feita para mexer com o coração, que não tenta ser mais esperta que o público, mas sabe exatamente onde apertar para dar aquele nó na garganta. E a presença barbuda e cansada de Harrison Ford funciona como um cobertor quentinho numa noite gelada.
Não é perfeito e às vezes parece polido demais, mas é raro encontrar uma aventura para a família que conte com tanta clareza e carinho o que significa achar o nosso lugar no mundo.
Ficha do filme
| Original | The Call of the Wild |
|---|---|
| Estreia no Brasil | 19/02/2020 |
| Direção | Chris Sanders |
| Elenco | Harrison Ford, Dan Stevens, Colin Woodell, Karen Gillan, Omar Sy, Raven Scott |
| Gênero | Filmes de aventura, Filmes para a família, Dramas |
| Duração | 100 min |
| Classificação | 12 |
| País | Filmes americanos |
Onde assistir O Chamado da Floresta?
| Por assinatura |
|---|
Do que se trata, sem spoilers: da varanda ao trenó do correio
Buck é um cachorrão adorável e um tanto mimado, com uma vida bem simples: mora na Califórnia, cercado de conforto, e sua maior aventura provavelmente é derrubar alguma coisa dentro de casa. Até que, de repente, é levado para longe de tudo o que conhece e vai parar no Yukon selvagem, no Alasca, em plena corrida do ouro dos anos 1890. Ali ninguém faz carinho na cabeça dele só porque ele é fofo.
Buck vira o mais novo integrante de uma matilha que puxa o trenó do correio e, mais adiante, o líder do grupo. No fundo, o filme é a história do amadurecimento dele: como o bichinho de estimação acomodado se transforma em alguém que se vira sozinho e, no fim, se torna dono do próprio destino. Melhor não contar mais do que isso, porque a força do filme está justamente em construir essa transformação aos poucos, cena a cena.
A fórmula é clássica: um mundo estranho, provas duras, gente boa e gente ruim, e um animal que sobrevive a tudo isso e sai mais forte. Quem já chorou em filme de cachorro na infância sabe muito bem onde está se metendo.
Harrison Ford, o coração ranzinza
Vamos combinar: muita gente vai ao cinema por causa do Harrison Ford. Depois de Han Solo e Indiana Jones, aqui ele aparece num papel bem diferente. John Thornton é um sujeito quebrado e calado, em quem o olhar fala mais que as palavras. Nessa fase da carreira, Ford já não é o herói da aventura, e sim o velho que caminha ao lado dele, e isso cai surpreendentemente bem. Existe nele um calor cansado sem o qual o filme ficaria bem mais vazio.
O resto do elenco também está bem encaixado. Omar Sy, como Perreault, traz aquele carisma ensolarado e desarmante que a gente adora desde Intocáveis, e Cara Gee, como Françoise, forma uma ótima dupla com ele. Do outro lado aparecem Dan Stevens como Hal, Karen Gillan como Mercedes e Colin Woodell como Charles. Stevens é o tipo de ator que adora carregar um pouco na tinta, e é exatamente o que ele faz aqui. Para alguns pode soar caricato demais, mas num filme para a família, para mim, cabe direitinho.
Raven Scott e Wes Brown também surgem em papéis menores, mas o verdadeiro protagonista, sem dúvida, é Buck. Tudo gira em torno dele, e o filme funciona melhor justamente quando os humanos servem só de moldura para a jornada do cachorro.
Chris Sanders, alguém que sabe contar histórias de bichos
A direção é de Chris Sanders, e isso explica muita coisa. Ele assina Lilo & Stitch e Como Treinar o Seu Dragão, ou seja, passou boa parte da carreira contando como humanos e não humanos criam laços. Essa bagagem aparece aqui: Sanders não tem medo de emoções grandes e límpidas, nem sente vergonha quando uma cena quer simplesmente emocionar.
O ritmo é agradável, e os 100 minutos de duração são na medida certa para não cansar e ainda dar espaço para desenvolver a transformação de Buck. Por outro lado, a cabeça de animador de Sanders é uma faca de dois gumes. Às vezes o filme parece o irmão em live action de um desenho animado: tudo é um pouco mais brilhante, um pouco mais expressivo, um pouco mais fantasioso que a realidade. Para as crianças, é ótimo. Já o espectador adulto pode ficar pensando que uma versão mais dura e crua teria batido ainda mais forte.
Neve, luz e corrida do ouro: o visual
O Yukon é o outro protagonista do filme. As paisagens nevadas, o branco sem fim, os rios congelados e o mundo lotado e enlameado da corrida do ouro criam um contraste lindo. O momento em que Buck se dá conta pela primeira vez do tamanho daquela imensidão é cinema de verdade, daqueles que pedem tela grande.
As cenas de trenó têm pegada, velocidade e perigo, e mostram bem o trabalhão que era fazer a correspondência chegar naquele mundo. Em alguns momentos as imagens são perfeitas demais, como se a gente estivesse olhando um cartão-postal, mas confesso que é difícil apontar isso como defeito num filme cujo objetivo é justamente encantar.
Onde o trenó derrapa?
A grande questão é quanto você aguenta da sinceridade emocional do filme. Quem gosta de histórias claras, com mocinhos e vilões bem separados, vai achar um acerto em cheio. Já quem procura personagens mais complexos e sombrios pode achar os vilões muito de desenho animado e as reviravoltas previsíveis.
O outro risco é a previsibilidade. Este filme não quer surpreender, quer acalmar e tocar. Isso é qualidade e fraqueza ao mesmo tempo. Eu não me incomodei, mas entendo quem saia dando de ombros, com aquela sensação de já ter visto isso antes, só que com outro cachorro.
- O que funciona: Harrison Ford, o personagem Buck, a paisagem, as emoções sem rodeios.
- O que funciona menos: os vilões simplórios demais, a dramaturgia previsível, o visual às vezes reluzente demais.
Para quem é?
- É para você se: Famílias com crianças um pouco maiores, apaixonados por cachorros e todo mundo que curte aventuras à moda antiga, daquelas que falam direto ao coração. Também é uma boa pedida para fãs de Harrison Ford que queiram ver o lado mais quieto dele.
- Melhor pular se: Quem espera um drama de sobrevivência cru e realista, ou tem alergia a emoção escancarada e histórias previsíveis, provavelmente vai se decepcionar.
Se gostar, veja também: Caninos Brancos (1991), Balto (1995), Togo (2019), Quatro Vidas de um Cachorro (2017)
Perguntas frequentes
Quando O Chamado da Floresta estreou no Brasil?
O filme estreou nos cinemas brasileiros em 19 de fevereiro de 2020.
Qual é a história de O Chamado da Floresta?
Buck, um cachorro doméstico da Califórnia, vai parar de repente no Yukon selvagem, no Alasca, durante a corrida do ouro dos anos 1890. Lá ele entra para uma matilha que puxa o trenó do correio, vira o líder do grupo e, no fim, encontra seu lugar no mundo.
Qual é a duração de O Chamado da Floresta?
O filme tem 100 minutos.
Quem está no elenco de O Chamado da Floresta?
Harrison Ford interpreta John Thornton, ao lado de Omar Sy (Perreault), Cara Gee (Françoise), Dan Stevens (Hal), Karen Gillan (Mercedes) e Colin Woodell (Charles).
Quem dirigiu O Chamado da Floresta?
O filme foi dirigido por Chris Sanders.
Vale a pena seguir Buck até o Yukon?
Vale, se você souber o que vai encontrar. O Chamado da Floresta não é um filme revolucionário nem quer reescrever regra nenhuma, mas conta com honestidade e carinho uma história eterna sobre liberdade, lealdade e sobre como às vezes é preciso abrir mão do conforto para se tornar quem a gente realmente é. Harrison Ford é garantia, Buck conquista na hora, o Yukon impressiona e Chris Sanders sabe direitinho onde tocar o nosso coração.
Para uma tarde chuvosa de domingo, como programa da família inteira, é perfeito. Só deixe os lenços por perto, porque filme de cachorro raramente tem piedade da gente.
