Up: Altas Aventuras crítica: o milagre dos balões da Pixar que parte seu coração em dez minutos
Tem aquele momento no começo de Up: Altas Aventuras em que gente grande começa a procurar um lenço no meio de um desenho animado, e sem a menor vergonha. O filme de Pete Docter conta a história de um viúvo solitário de 78 anos que, literalmente, levanta a própria casa e sai voando com ela. A premissa é tão maluca que só a Pixar teria coragem de levá-la tão a sério, e é justamente por isso que o resultado ficou inesquecível.
Up: Altas Aventuras é um dos pontos mais altos da Pixar: engraçado, cheio de aventura e tão sincero ao falar de luto e de sonhos deixados para trás quanto poucos filmes com atores de carne e osso conseguem ser.
Ficha do filme
| Original | Up |
|---|---|
| Estreia no Brasil | 04/09/2009 |
| Direção | Pete Docter |
| Elenco | Ed Asner, Christopher Plummer, Jordan Nagai, Bob Peterson, Delroy Lindo, Jerome Ranft |
| Gênero | Filmes de animação, Comédias, Filmes para a família, Filmes de aventura |
| Duração | 96 min |
| Classificação | L |
| País | Filmes americanos |
Uma casa, milhares de balões e um sonho esquecido
Carl Fredricksen tem 78 anos e, desde a morte da esposa, vive recluso e sozinho. Uma empresa já comprou todos os terrenos ao redor da casa antiga dele e, claro, está de olho no imóvel também. Só que Carl não consegue se desapegar: as paredes estão cheias de lembranças, entre elas uma foto que ele e a esposa contemplavam enquanto sonhavam em viajar um dia até a maior cachoeira do mundo. A viagem nunca aconteceu.
Aí vem a reviravolta que virou a cara do pôster: aproveitando a experiência dos tempos em que vendia balões, Carl enche a casa de balões numa única noite e, na manhã em que seria levado para um asilo, simplesmente sobe aos céus com ela. Destino: América do Sul. O único problema é que tem um passageiro clandestino a bordo, um garoto que estava no lugar errado na hora errada, ou no lugar certo na hora certa, depende do ponto de vista.
Não vou contar mais nada, porque uma das grandes alegrias de Up é surpreender o tempo todo. O que dá para garantir é que aquilo que começa como a fuga de um avô ranzinza vira um filme de aventura, e daqueles que batem diferente em quem assiste criança e em quem assiste adulto.
Aqueles primeiros dez minutos de que todo mundo fala
Não vou entregar os detalhes, mas preciso destacar: a abertura do filme é uma das jogadas mais corajosas da animação moderna. A Pixar começa uma comédia para a família com um prólogo que caberia melhor num drama adulto. Quase sem diálogos, só com imagens e música, ela conta algo que muito filme não consegue dizer com tanta clareza em duas horas.
É graças a essa ousadia que Carl não é um velhinho engraçado de quem a gente ri, e sim uma pessoa que a gente entende. Por trás de cada resmungo e de cada gesto teimoso existe algo que todos nós carregamos. A partir daí, a casa voadora deixa de ser piada e passa a ser luto, teimosia e esperança ao mesmo tempo. É raro um desenho em que um cacho de balões signifique tanta coisa.
Vozes que dão vida aos personagens
Ed Asner como Carl Fredricksen é um acerto em cheio. A voz dele é rouca e rabugenta, mas lá no fundo esconde um calor humano, e é exatamente isso que impede Carl de ficar antipático. O tempo inteiro dá para sentir que esse velho resmungão um dia soube amar muito.
Jordan Nagai como Russell é o contraponto perfeito: animado, tagarela, um pouco irritante, como qualquer criança de verdade. A dinâmica entre os dois, o velho emburrado e o menino infinitamente otimista, é o motor do filme. Christopher Plummer, que muita gente conhece de A Noviça Rebelde, empresta um peso especial à história como a voz de Charles Muntz, mas sobre ele prefiro ficar quieto para não dar spoiler.
Um elogio à parte para Bob Peterson, que dubla tanto Dug quanto Alpha e transforma os dois em figuras memoráveis. Delroy Lindo como Beta e Jerome Ranft como Gamma também deixam o grupo mais colorido, e John Ratzenberger, o amuleto da sorte que sempre aparece nos filmes da Pixar, dá as caras mais uma vez num papel pequeno, como Tom, o mestre de obras.
Pete Docter, o diretor que mexe com a gente
Pete Docter já tinha provado com Monstros S.A. que sabe contar histórias para crianças de um jeito que emociona os adultos. Up leva essa habilidade ao auge. Docter não tem medo de momentos lentos e silenciosos e, mais importante ainda, confia no público. Não explica demais, não empurra cada emoção na nossa cara, simplesmente deixa as imagens trabalharem.
O ritmo também é de mestre. São 96 minutos, e cabe tudo ali: drama, pastelão, a empolgação de um filme de aventura e um monte de humor absurdo. Mesmo assim nada parece amontoado, porque cada piada e cada cena de ação se conecta de algum jeito à jornada emocional de Carl. É o que as animações mais fracas nunca aprendem: o espetáculo só vale alguma coisa quando estamos torcendo por alguém.
Cores, balões e uma melodia que não sai da cabeça
Visualmente, Up é um livro ilustrado cheio de brincadeira. As formas quadradas e arredondadas dos personagens funcionam quase como uma descrição de cada um: a cabeça quadradona de Carl diz tudo sobre a teimosia dele. A casa flutuando sob a nuvem colorida de balões é uma das imagens mais icônicas que uma animação já nos deu, e as paisagens sul-americanas são de encher os olhos.
A música, então, merecia um capítulo só para ela. O tema principal é uma valsinha simples, que no começo soa só encantadora e, conforme volta de novo e de novo, vai ficando cada vez mais dolorida e cada vez mais bonita. Boa parte da montagem do início depende dessa música, e ela segura tudo com folga. Se você ainda estiver cantarolando uma semana depois, não se assuste.
Onde o balão balança?
Se for para implicar, e eu quero implicar um pouquinho, diria que a segunda metade às vezes vira mais uma aventura tradicional do que a abertura faria esperar. Aquela profundidade emocional genial com que Up começa, em alguns momentos, cede espaço para perseguições e pastelão. Para as crianças isso é perfeito, mas o espectador adulto pode sentir falta, aqui e ali, daquela magia silenciosa que o conquistou.
Mas isso é detalhe mesmo. Up sabe para onde está indo até nas partes mais agitadas, e o coração dele continua no lugar certo do começo ao fim.
Para quem é?
- É para você se: Para todo mundo que gosta dos filmes da Pixar, de cinema familiar que fala ao coração ou simplesmente de uma boa aventura. Especialmente recomendado para assistir junto com os avós, reunindo várias gerações no sofá.
- Melhor pular se: Para quem espera de uma animação só palhaçada leve e despreocupada e não quer que um desenho fale também de luto e de sonhos que ficaram pelo caminho.
Se gostar, veja também: Monstros S.A. (2001), WALL·E (2008), Toy Story 3 (2010), Divertida Mente (2015), Viva: A Vida é uma Festa (2017)
Perguntas frequentes
Sobre o que é Up: Altas Aventuras?
Carl Fredricksen, um viúvo de 78 anos, faz a própria casa voar com balões numa única noite e parte para a América do Sul para realizar o sonho que dividia com a esposa: conhecer a maior cachoeira do mundo. Um garoto clandestino acaba indo junto na viagem.
Quando Up: Altas Aventuras estreou no Brasil?
O filme estreou nos cinemas brasileiros em 4 de setembro de 2009.
Quanto tempo dura Up: Altas Aventuras?
Up: Altas Aventuras tem 96 minutos de duração.
Quem dirigiu Up: Altas Aventuras?
O diretor do filme é Pete Docter.
Quem faz as vozes de Up: Altas Aventuras na versão original?
Carl Fredricksen é dublado por Ed Asner, Charles Muntz por Christopher Plummer, Russell por Jordan Nagai, e Dug e Alpha por Bob Peterson.
Qual é o título original de Up: Altas Aventuras?
O título original é Up. É uma animação americana que mistura comédia e aventura para toda a família.
Topa embarcar mais uma vez na casa do Carl?
Se você já assistiu, sabe a resposta: sim, e vai se emocionar de novo. E se de algum jeito ele passou batido, não deixe para depois. Up: Altas Aventuras é aquela animação rara que dá às crianças uma aventura maravilhosa e aos adultos um lembrete silencioso e lindamente doloroso de que sonho não foi feito para ficar guardado na prateleira. Separe o lenço e deixe os balões levarem você.
