Miami Vice crítica: o filme policial neon, suado e incompreendido de Michael Mann
Quem foi ao cinema em 2006 esperando paletó pastel, flamingos cor de rosa e hits de synthpop levou um belo susto. O Miami Vice de Michael Mann não é festa nostálgica. É um policial escuro, úmido e noturno, mais interessado em criar clima do que em contar uma história. E, vinte anos depois, fica cada vez mais claro que isso não foi acidente, foi escolha.
Um filme falho, frio e às vezes irritantemente fechado, mas com uma atmosfera que poucos filmes de ação têm coragem de bancar.
Ficha do filme
| Estreia no Brasil | 25/08/2006 |
|---|---|
| Direção | Michael Mann |
| Elenco | Colin Farrell, Jamie Foxx, Naomie Harris, 巩俐, John Ortiz, Ciarán Hinds |
| Gênero | Filmes de ação, Filmes policiais, Thrillers |
| Duração | 132 min |
| Classificação | 16 |
| País | Filmes alemães, Filmes americanos |
Onde assistir Miami Vice?
| Por assinatura |
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Dois tiras, uma infiltração e uma péssima decisão
A premissa é clássica. Sonny Crockett (Colin Farrell) e Ricardo Tubbs (Jamie Foxx) são detetives de Miami que já não são fáceis separados e, juntos, viram pólvora pura. Na nova missão, Tubbs precisa se infiltrar na rede de tráfico de drogas do sul da Flórida para pegar os responsáveis por três assassinatos.
A operação anda bem por um tempo, até chegar o erro sem o qual não haveria filme: Crockett se apaixona por Isabella, mulher de um traficante de armas e drogas, vivida por Gong Li. A partir daí trabalho e vida pessoal se embaralham, e o filme vai deixando de ser história de polícia para virar algo mais melancólico, quase um noir romântico.
Não precisa saber mais do que isso antes de assistir. Miami Vice não é famoso por reviravoltas mirabolantes, e sim pelo jeito como conta o que conta.
Esqueça o pastel: isto não são os anos 80
O filme é a versão para o cinema da lendária série dos anos 80, que tornou Don Johnson e Philip Michael Thomas ícones e teve o próprio Michael Mann como produtor. Justamente por isso foi tão surpreendente ver Mann jogar fora quase tudo o que o público associava à marca.
Não tem ironia, não tem autoparódia, não tem piscadinha para a plateia. A imagem é granulada, digital, noturna. As nuvens são de tempestade, o mar é escuro, as boates estão cheias de fumaça. Aqui Miami não é paraíso ensolarado, mas um entroncamento abafado, úmido e perigoso, onde dinheiro e droga correm como água.
Vou ser sincero: na primeira vez, eu também fiquei sem entender. Na segunda, percebi que não se trata de um remake da série, e sim da visão pessoal de um diretor sobre como seria esse mundo levado a sério. Uma aposta corajosa para um blockbuster de verão de grande estúdio.
Farrell, Foxx e uma Gong Li inesquecível
O Crockett de Colin Farrell é um sujeito de bigode, desgrenhado e de poucas palavras, que diz mais com um olhar demorado do que com um monólogo. Muita gente achou o ator duro demais. Para mim, a graça está exatamente aí: um homem que se esconde no trabalho até que uma mulher o arranca de lá.
O Tubbs de Jamie Foxx é mais contido, mais pé no chão, a metade sensata da dupla. Ele não ganha o espaço que merecia, e essa é uma das grandes falhas do filme. Quem viu Foxx no trabalho anterior de Mann, Colateral, sabe do que ele é capaz nas mãos desse diretor.
A maior surpresa é Gong Li. Sua Isabella é fria e vulnerável ao mesmo tempo, e as cenas com Farrell formam o coração emocional do filme. Ao redor deles, Naomie Harris (Trudy Joplin), John Ortiz (José Yero), Ciarán Hinds (o agente do FBI Fujima), Justin Theroux (Zito) e Barry Shabaka Henley (tenente Castillo) compõem um elenco de apoio sólido e convincente. Ortiz se destaca como o imprevisível e desagradável Yero.
Michael Mann, o mestre da atmosfera
Michael Mann é leitura obrigatória para qualquer fã de policial. Desde Fogo contra Fogo sabemos que ninguém filma a noite urbana, o tiroteio e a solidão masculina como ele. Miami Vice talvez seja a peça mais radical desse estilo.
A câmera muitas vezes acompanha os personagens na mão, as cenas começam no meio da ação, sem longas preparações. Os diálogos vêm carregados de jargão, e Mann não perde tempo explicando tudo. Isso tira alguns espectadores do filme, mas a mim prende: dá a sensação de estar sentado ao lado de um agente infiltrado que não pode se dar ao luxo de entender errado uma única palavra.
E os tiroteios, quando chegam, caem com uma força absurda. O som é seco, pesado, real, sem nenhum brilho coreografado. Nesse quesito, Mann segue imbatível.
Onde a engrenagem falha
Os 132 minutos pesam. O trecho do meio, quando o filme se concentra no romance, vai parecer lindamente sonhador para uns e simplesmente lento para outros. Eu fico no meio do caminho: adoro o clima, mas confesso que em certo momento assistir vira mais um mergulho do que uma experiência de tensão.
O outro problema é a profundidade dos personagens. Crockett e Tubbs são bem menos vivos do que os atores conseguiriam entregar. Mann foge tanto do melodrama que às vezes acaba matando a emoção junto. A relação entre Tubbs e Trudy, por exemplo, merecia muito mais atenção.
- Ponto forte: atmosfera sem igual, ação brutalmente realista, imagens hipnóticas.
- Ponto fraco: personagens rasos, miolo arrastado, tom gelado.
Como o filme envelheceu em vinte anos?
Surpreendentemente bem. A estética digital, que muita gente achou feia e barata na época, hoje é exemplo de como transformar tecnologia em estilo. Vários filmes e séries que vieram depois seguem essa linha noturna, granulada e neon.
Miami Vice é daqueles filmes incompreendidos no lançamento em torno dos quais, aos poucos, nasceu um culto. Nunca vai ser o favorito de todo mundo, mas quem é fisgado pelo clima volta a ele com frequência, de preferência tarde da noite, com as cortinas fechadas.
Para quem é?
- É para você se: Para fãs de Michael Mann, para quem curte policiais adultos e cheios de atmosfera e para todo mundo que gosta quando um filme de ação mais sugere e oprime do que explica.
- Melhor pular se: Quem procura o clima leve e colorido da série dos anos 80 ou está a fim de uma comédia policial de parceiros, ágil e cheia de piadas, vai se decepcionar.
Se gostar, veja também: Fogo contra Fogo (1995), Inimigos Públicos (2009), Viver e Morrer em Los Angeles (1985), Dia de Treinamento (2001), Sicario: Terra de Ninguém (2015)
Perguntas frequentes
Sobre o que é o filme Miami Vice?
Dois detetives de Miami, Sonny Crockett e Ricardo Tubbs, se infiltram numa rede de tráfico de drogas do sul da Flórida para pegar os criminosos responsáveis por três assassinatos. A situação se complica quando Crockett se apaixona pela mulher de um traficante de armas e drogas.
Quando Miami Vice estreou no Brasil?
O filme estreou nos cinemas brasileiros em 25 de agosto de 2006.
Qual a duração de Miami Vice?
O filme tem 132 minutos.
Quem dirigiu Miami Vice?
O filme foi dirigido por Michael Mann.
Quem está no elenco principal de Miami Vice?
Colin Farrell vive Sonny Crockett e Jamie Foxx interpreta Ricardo Tubbs. O elenco conta ainda com Gong Li, Naomie Harris, John Ortiz, Ciarán Hinds, Justin Theroux e Barry Shabaka Henley.
Vale a pena mergulhar de novo na Miami sombria de Mann hoje?
Vale, mas só no clima certo. Miami Vice não é filme para ver domingo à tarde, com um olho na tela e outro no celular. Tem que sentar na frente dele tarde da noite, no quarto escuro, com o volume lá em cima, e deixar a noite abafada e piscante engolir você. Fazendo isso, você ganha um policial fascinante e cheio de personalidade, mesmo com seus defeitos, mais corajoso do que a maioria dos filmes de ação de grande orçamento. Agora, se a ideia é piada rápida e nostalgia pastel, melhor ficar com a série antiga. Para mim é um sete bem firme, com ponto extra pela atmosfera.
