O Homem Mais Solitário da Cidade, crítica antecipada: um blues num prédio condenado em Viena
Existe um tipo de solidão que não chora: ela só coloca um vinil para tocar, bem baixinho. O Homem Mais Solitário da Cidade fala exatamente disso, de um velho músico de blues que é o último a resistir num prédio condenado em Viena. O filme chega aos cinemas brasileiros em 27 de maio de 2027 e, confesso logo de cara, tenho um fraco por filmes silenciosos e em escala humana, então a expectativa aqui está lá em cima.
No papel, tem tudo para ser um filme pequeno, melancólico e de impacto profundo sobre luto e a chance de recomeçar. Só precisa tomar cuidado para não se perder no próprio silêncio.
Ficha do filme
| Original | The Loneliest Man in Town |
|---|---|
| Estreia no Brasil | 27/05/2027 |
| Direção | Tizza Covi, Rainer Frimmel |
| Elenco | Alfred Blechinger, Al Cook, Brigitte Meduna |
| Gênero | Cinebiografias |
| Duração | 86 min |
| País | Filmes austríacos |
Um homem, um prédio, uma pilha de discos: do que trata o filme?
A premissa é simples, e é justamente isso que a torna forte. O músico de blues Al Cook vive como o último morador de um prédio residencial vienense prestes a ser demolido, cercado de lembranças antigas e discos de vinil. Lá fora, o mundo segue no seu ritmo; lá dentro, parece que o tempo parou. Até que aparece uma incorporadora que decreta a demolição do edifício, e o único refúgio de Al de repente fica ameaçado.
É daí que nasce o que realmente está em jogo no filme, e não é o prédio, é o homem. Al precisa encarar o fim de uma era, o luto pela esposa falecida, Silvia, e, talvez o mais difícil de tudo, a possibilidade de um novo começo. O que esse recomeço significa e aonde ele leva, a sinopse oficial não conta, e faz muito bem. É aquele tipo de história que a gente não assiste pelas reviravoltas, mas para passar um tempo sentado ao lado do protagonista naquele quarto à meia-luz.
A duração de 86 minutos, aliás, já diz muita coisa. Não vamos ver um drama de luto arrastado de duas horas, e sim uma peça de câmara enxuta e concisa. Ótima notícia, porque temas assim costumam cansar quando são esticados demais.
Al Cook no papel de Al Cook
O elenco já fala por si à primeira vista. O protagonista se chama Al Cook, e o personagem também é um músico de blues chamado Al Cook. Esse tipo de sobreposição entre pessoa real e figura de cinema costuma indicar que o filme chega muito perto da realidade, e a classificação de gênero, cinebiografia, aponta na mesma direção. Quanto é verdade e quanto é ficção, só saberemos depois da estreia, mas a proposta em si já é instigante.
Ao lado dele aparecem Alfred Blechinger e Brigitte Meduna. Não são nomes que fazem fila dar volta no shopping, e sinceramente acho isso ótimo. Nesse tipo de filme, a autenticidade dos rostos vale mais que qualquer estrela. Se no rosto de um velho músico estão marcados trinta anos de bares enfumaçados e amores perdidos, não há maquiagem nem técnica de atuação que substitua isso.
Para mim, essa é a maior promessa do filme: não ver um ator interpretando um bluesman solitário, e sim uma câmera que simplesmente o mostra como ele é.
Tizza Covi e Rainer Frimmel: a dupla que se equilibra na fronteira do real
A direção é de Tizza Covi e Rainer Frimmel, que trabalham juntos há muito tempo e são nomes bem conhecidos do público de festivais. A marca deles é borrar a linha entre documentário e ficção: costumam filmar com pessoas que levam para a tela uma versão da própria vida. Basta lembrar de La pivellina ou de Vera, lançado há poucos anos, para entender o que esperar.
Esse método combina perfeitamente com o tema. Um prédio condenado, um velho músico e o luto formam um material que poderia facilmente escorregar para o piegas, se alguém quisesse vendê-lo com trilha grandiosa e monólogos para arrancar lágrimas. Pelo histórico de Covi e Frimmel, a aposta deve ser na observação, na paciência e num humor discreto. Pelo menos é nisso que eu apostaria.
O fato de ser um filme austríaco também diz bastante. O cinema da Áustria não é famoso por desfechos confortáveis, e Viena costuma ganhar nesses filmes uma cara bem menos de cartão-postal. Estou curioso para ver o quanto a cidade será só cenário e o quanto será personagem.
Por que isso soa tão bem?
Para ser honesto, ao ler a sinopse começou a tocar na minha cabeça um blues lento de doze compassos. E acho que essa é a arma secreta do filme: a música. Um longa sobre um bluesman que vive cercado de vinis não pode existir sem uma identidade sonora forte, e é por isso que já dou de antemão uma nota tão alta para a trilha.
- Um conflito conhecido, mas sempre atual: a briga entre prédios antigos, moradores de longa data e incorporadoras é bem familiar para quem vive em qualquer grande cidade brasileira. Muita gente vai se reconhecer, ou reconhecer os avós, nessa história.
- O luto como tema: a perda de Silvia provavelmente é o núcleo emocional do filme, e perder o prédio deve funcionar como uma espécie de luto secundário.
- Esperança no fim: a sinopse menciona explicitamente um possível recomeço, ou seja, não é para esperar uma obra desesperançada e depressiva.
- Duração curta: 86 minutos, o que num filme meditativo assim é uma baita vantagem.
Onde pode dar errado?
Onde há tanta promessa, o risco também é real. Filmes pequenos e guiados por personagem costumam ter duas armadilhas típicas. A primeira é o silêncio e a lentidão virarem um fim em si mesmos, e o espectador, em vez de sentir junto com o protagonista, começar a olhar o relógio. A segunda é o conflito ficar esquemático demais: incorporadora malvada contra alma sensível de artista. Já vimos isso muitas vezes, e só funciona se o filme for mais matizado que isso.
O terceiro ponto de interrogação é o público. Não é o filme para aquela turma de sexta à noite com balde de pipoca, e quem entrar com a expectativa errada vai se decepcionar. O filme não quer fazer barulho, e quem espera ação, reviravoltas ou um arco dramático clássico pode facilmente achá-lo monótono.
Mesmo assim, estou otimista, porque pela trajetória da dupla o problema tende a ser o excesso de contenção, e não o exagero. E, aos meus olhos, esse é um pecado bem mais perdoável.
Para quem é?
- É para você se: Para quem gosta de cinema europeu silencioso e próximo das pessoas, para fãs de blues e de vinil, e para todo mundo que sabe o que é se despedir de uma casa ou de alguém querido.
- Melhor pular se: Quem procura trama acelerada, reviravoltas espetaculares ou um drama hollywoodiano clássico provavelmente vai achar o filme lento e quieto demais.
Se gostar, veja também: Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum (2013), Dias Perfeitos (2023), Up: Altas Aventuras (2009), Umberto D. (1952), Vera (2022)
Perguntas frequentes
Quando O Homem Mais Solitário da Cidade estreia no Brasil?
O filme estreia nos cinemas brasileiros em 27 de maio de 2027.
Do que trata O Homem Mais Solitário da Cidade?
O músico de blues Al Cook é o último morador de um prédio residencial em Viena prestes a ser demolido. Quando uma incorporadora decide pôr o edifício abaixo, ele precisa encarar o fim de uma era, o luto pela esposa falecida, Silvia, e a possibilidade de um novo começo.
Qual é a duração do filme?
O Homem Mais Solitário da Cidade tem 86 minutos.
Quem dirigiu o filme?
A direção é de Tizza Covi e Rainer Frimmel.
De que país é o filme?
O Homem Mais Solitário da Cidade é uma produção austríaca.
Você se sentaria com um bluesman num prédio vazio?
Eu, com certeza. O Homem Mais Solitário da Cidade é aquele tipo de filme que não vai gritar dos cartazes nem liderar bilheterias, mas tem tudo para ser um dos longas mais humanos do ano. Um velho músico, um prédio agonizando, a memória de uma esposa perdida e um leve raio de esperança: é o suficiente para acertar em cheio, se os diretores encontrarem o tom certo. Pelo que Covi e Frimmel já fizeram, as chances são grandes. No fim de maio, com o outono já trazendo noites mais longas, fica difícil pensar num programa de cinema melhor. Minha nota esperada: 8/10, e torço sinceramente para não precisar baixá-la depois da estreia.
