O Outro Lado das Redes, crítica antecipada: Aaron Sorkin volta ao Facebook e agora não perdoa
Aaron Sorkin já contou como o Facebook nasceu. Agora ele quer contar o que o Facebook faz com a gente. No papel, O Outro Lado das Redes é um dos filmes adultos mais empolgantes do ano, e se a máquina Sorkin funcionar, muita gente vai sair do cinema em outubro olhando torto para o próprio celular.
Diálogos de Sorkin, uma protagonista vencedora do Oscar e um escândalo real: é raro um drama baseado em fatos ganhar matéria-prima tão boa. Só falta o filme sobreviver à própria pretensão.
Ficha do filme
| Original | The Social Reckoning |
|---|---|
| Estreia no Brasil | 22/10/2026 |
| Direção | Aaron Sorkin |
| Elenco | Wunmi Mosaku, Jeremy Allen White, Mikey Madison, Patrick Fischler, Betty Gilpin, Billy Magnussen |
| Gênero | Docudramas |
| País | Filmes americanos |
Do que se trata? Uma engenheira, um jornalista e um segredo
A estrutura é clássica, e justamente por isso pode dar certo. Frances, vivida por Mikey Madison, é uma jovem engenheira do Facebook. Lá dentro ela descobre algo sobre o qual sente que não tem o direito de ficar calada. Procura então um jornalista do Wall Street Journal, interpretado por Jeremy Allen White, e a partir daí os dois seguem por um caminho cada vez mais perigoso.
Segundo a sinopse oficial, Frances está disposta a trapacear, espionar e mentir por uma boa causa. Para mim, essa frase é a promessa mais interessante do filme. Não teremos uma mártir santa, e sim alguém que também quebra as regras enquanto tenta desmascarar um sistema que vive de quebrar regras. O resultado é uma reportagem bombástica, que provoca um escândalo gigantesco sobre os segredos mais bem guardados da rede social. Como o filme se baseia em fatos reais, o destino da história já está dado: a tensão precisa nascer do como eles chegam lá.
O slogan também acerta em cheio: "Não somos só nós que usamos a rede. Ela também nos usa." Tem um certo cheiro de cartaz, mas acerta exatamente onde precisa.
Sorkin, o homem das palavras
O nome de Aaron Sorkin já é um gênero por si só. Foi ele quem escreveu o roteiro de A Rede Social, dirigido por David Fincher e até hoje um dos melhores filmes sobre como uma ideia de dormitório universitário vira um poder global. Como diretor, assinou A Grande Jogada, Os 7 de Chicago e Apresentando os Ricardos.
O que esperar? Diálogos rápidos, espirituosos, em que um personagem tenta sempre superar o outro, gente que diz a frase mais inteligente possível no momento mais certeiro possível, e uma bússola moral bem firme. Numa história de jornalismo e denúncia, isso pode valer ouro: as brigas na redação, as negociações com advogados e os dilemas de proteção da fonte são o território natural de Sorkin.
O risco, porém, é o de sempre. Como diretor, Sorkin tende a fazer cenas que parecem teatro filmado, e o que nas mãos de Fincher era uma tensão fria e precisa às vezes escorrega, com ele, para o melodrama de TV. Se O Outro Lado das Redes tiver um ponto fraco, provavelmente será esse: o texto vai ser ótimo, a dúvida é se a imagem também terá algo a dizer.
Um elenco de dar inveja
Sinceramente: foi ver essa lista de nomes que me fez endireitar na cadeira. Depois de Anora, Mikey Madison virou uma das jovens atrizes mais interessantes do momento, e o papel de uma denunciante moralmente ambígua, em conflito consigo mesma, é o desafio perfeito para ela. Em Anora ela tinha uma energia crua; aqui, provavelmente, vai precisar de uma tensão mais silenciosa e nervosa. Estou curioso para ver o que ela faz com isso.
Jeremy Allen White é, desde O Urso, o rei absoluto dos personagens ansiosos e sobrecarregados, e um repórter investigativo equilibrando prazos, fontes e ameaças judiciais não está muito longe disso. Se a química entre os dois funcionar, metade do filme já está ganha.
E ainda tem o time de coadjuvantes: Jeremy Strong, que em Succession mostrou como fica bem no papel de quem se debate perto do poder, além de Wunmi Mosaku, Betty Gilpin, Billy Magnussen e Patrick Fischler. Quem cada um interpreta exatamente, ainda não se sabe, mas é o tipo de elenco de atores de personagem capaz de tornar memorável uma cena de três minutos. E os roteiros de Sorkin adoram entregar as melhores falas também aos coadjuvantes.
Por que agora, e por que isso incomoda tanto?
O Outro Lado das Redes mexe com um tema do qual todos nós fazemos parte, queira ou não. Não é um escândalo político distante nem a falência de um banco: é o aplicativo que a gente abre primeiro de manhã e por último à noite. A força do filme pode vir justamente daí, porque o espectador não assiste de fora. O sistema desmascarado também molda o feed dele.
Uma frase da sinopse me pegou de jeito: "Se é que existe algum propósito." É uma pergunta muito mais assustadora do que um CEO malvado nos bastidores. Se o filme não quiser apontar um vilão, e sim um sistema que não obedece de verdade a ninguém, aí não teremos um simples thriller de denúncia, mas um retrato inquietante da nossa época.
Em termos de gênero, segue a trilha de Spotlight e Todos os Homens do Presidente, filmes em que um telefonema, um documento vazado e uma decisão de redação são tão emocionantes quanto uma perseguição de carro. Para quem gosta desse thriller que vai apertando aos poucos e é construído com palavras, este pode ser o filme da temporada.
Onde pode dar errado?
Vejo três perigos. Nenhum me parece fatal, mas os três são reais:
- A armadilha do sermão. Sorkin adora que os personagens expliquem a mensagem do filme em monólogos. Num tema tão atual, isso pode facilmente virar aula.
- O visual. Numa história construída em torno de notebooks, escritórios e salas de reunião, é difícil oferecer algo empolgante para os olhos. Aqui, Sorkin precisa ser um diretor melhor do que jamais foi.
- O final conhecido. É um caso real, e a publicação da grande reportagem não é segredo. A tensão, portanto, não pode vir de "como isso termina", e sim de "quanto isso vai custar a eles".
Se o filme levar a sério a ambiguidade moral de Frances e não a transformar numa história de heroína, esses riscos podem até desaparecer. Mas se todo mundo virar cavaleiro de armadura reluzente, teremos um telefilme bem escrito e esquecível, com orçamento de cinema.
Para quem é?
- É para você se: Para quem amou A Rede Social, Spotlight ou qualquer filme sobre jornalismo investigativo, e para quem quer saber o que acontece por trás dos seus aplicativos favoritos. Fãs de Mikey Madison e Jeremy Allen White: ingresso obrigatório.
- Melhor pular se: Quem busca ação, espetáculo visual ou diversão leve vai achar tudo falado demais e sério demais. E quem tem alergia aos diálogos acelerados e um tanto convencidos de Sorkin não deveria começar a fazer as pazes com ele por aqui.
Se gostar, veja também: A Rede Social (2010), Spotlight: Segredos Revelados (2015), Todos os Homens do Presidente (1976), O Informante (1999), The Post: A Guerra Secreta (2017)
Perguntas frequentes
Quando O Outro Lado das Redes estreia nos cinemas brasileiros?
A estreia no Brasil está marcada para 22 de outubro de 2026.
Do que trata O Outro Lado das Redes?
Frances, uma jovem engenheira do Facebook, descobre informações que não quer manter em segredo e procura um jornalista do Wall Street Journal. Juntos, eles percorrem um caminho perigoso que termina numa reportagem explosiva sobre os segredos da rede social.
O filme é baseado em uma história real?
Sim, o filme retrata um caso real, no formato de drama baseado em fatos.
Quem dirigiu O Outro Lado das Redes?
O filme é dirigido por Aaron Sorkin, que também escreveu o roteiro de A Rede Social.
Quem está no elenco de O Outro Lado das Redes?
Os protagonistas são Mikey Madison e Jeremy Allen White, ao lado de Wunmi Mosaku, Patrick Fischler, Betty Gilpin, Billy Magnussen e Jeremy Strong.
Qual é a nacionalidade de O Outro Lado das Redes?
É uma produção americana.
Vale a pena desligar o celular por duas horas por causa dele?
Acho que sim, e não digo isso só por causa do elenco chamativo. O Outro Lado das Redes é um daqueles filmes raros cujo tema está no bolso do espectador, e Sorkin é o tipo de roteirista capaz de transformar uma discussão de redação num thriller. Mikey Madison como uma denunciante em terreno moral pantanoso, Jeremy Allen White como o repórter persistente e, atrás deles, um elenco de apoio impressionante: no papel, é um começo de temporada muito forte.
Minhas ressalvas são com o diretor, não com o tema. Se desta vez Sorkin tiver coragem de confiar nas imagens e no silêncio, e não só nas falas, este pode ser o melhor trabalho dele atrás das câmeras. Se não, ainda teremos um filme inteligente, bem escrito e um pouco discursivo, depois do qual todo mundo vai olhar o próprio feed com um pouco mais de desconfiança. Minha nota esperada: um 8 forte, com teto aberto para cima. No dia 22 de outubro estarei lá, e desconfio que durante os créditos eu também vou pegar o celular. Só para guardar logo em seguida.
