Um Crime de Mestre, crítica: o xadrez de tribunal entre Anthony Hopkins e Ryan Gosling, em que o assassino sorri por último?
Existe um tipo de thriller em que a gente descobre quem é o assassino logo nos primeiros minutos, e é justamente isso que deixa tudo mais angustiante. Um Crime de Mestre é exatamente assim: a pergunta não é quem puxou o gatilho, e sim como provar isso. E o embate entre Anthony Hopkins e Ryan Gosling é um prazer tão grande que ainda vale a pena revisitar esse filme de 2007.
Um thriller de tribunal inteligente, elegante e muito divertido, cuja maior arma é o jogo de gato e rato entre os dois protagonistas.
Ficha do filme
| Original | Fracture |
|---|---|
| Estreia no Brasil | 11/05/2007 |
| Direção | Gregory Hoblit |
| Elenco | Anthony Hopkins, Ryan Gosling, David Strathairn, Rosamund Pike, Embeth Davidtz, Billy Burke |
| Gênero | Thrillers |
| Duração | 113 min |
| Classificação | 14 |
| País | Filmes alemães, Filmes americanos |
Um assassinato que parece simples demais
O ponto de partida é quase provocativamente óbvio. Ted Crawford descobre que a jovem esposa, Jennifer, o está traindo e arquiteta um plano perfeito para matá-la. Quando a polícia invade a casa, encontra Crawford com a arma na mão, e ele nem pensa em negar que atirou na mulher. Para deixar tudo ainda mais constrangedor, o detetive Rob Nunally reconhece, chocado, que a vítima era a sua própria amante.
Crawford é preso, confessa o crime e vai parar atrás das grades. No papel, é o tipo de caso que qualquer promotor ganha de olhos fechados. É exatamente o que pensa o ambicioso promotor assistente Willy Beachum, que enxerga ali uma vitória rápida e fácil. Só que, quanto mais ele cava, mais se enrola nos fios da trama, sem perceber que quem está no controle de tudo é Crawford.
Melhor não saber muito mais do que isso sobre a história. A força de Um Crime de Mestre está em embalar o espectador na mesma sensação confortável de segurança de Beachum para depois, aos poucos e com método, puxar o tapete.
Hopkins, o predador que sorri
Pouca gente consegue ser tão perigosa quanto Anthony Hopkins fazendo praticamente nada. Como Ted Crawford, ele entrega um homem frio, preciso e absurdamente seguro de si, que a cada frase está um passo à frente de todos. É difícil não lembrar de Hannibal Lecter, e o filme obviamente sabe disso, mas Crawford é outro tipo de monstro: a arma dele não é a ameaça crua, e sim a superioridade intelectual.
Dá para ver que Hopkins está se divertindo muito, e essa vontade de brincar contagia quem assiste. Cada cena dele é um pequeno espetáculo, em que ironia, uma condescendência quase paternal e um cálculo gelado aparecem ao mesmo tempo. Seria fácil exagerar, mas Hopkins sabe exatamente até onde pode ir. O resultado é um vilão para quem a gente acaba torcendo um pouquinho, meio envergonhado.
Gosling, o jovem promotor convencido
Nessa época, Ryan Gosling ainda era aquele ator jovem de quem todo mundo sentia que grandes coisas viriam, e Um Crime de Mestre mostra bem por quê. Willy Beachum não é um herói sem defeitos: é arrogante, carreirista, se acha um pouco demais, e é justamente isso que o torna interessante. Não temos um cavaleiro imaculado contra o mal, e sim um rapaz ambicioso para quem esse caso talvez seja o primeiro tapa de verdade da vida.
O estilo descontraído e confiante de Gosling combina perfeitamente com o personagem e, o mais importante, ele não some ao lado de Hopkins. Isso não é pouca coisa, porque é fácil ficar apagado diante de um ator desse calibre. As cenas dos dois juntos são os melhores momentos do filme, como uma partida de xadrez em que um jogador já pensa dez lances à frente e o outro ainda está aprendendo as regras.
O elenco de apoio também é forte. David Strathairn traz uma presença confiável e respeitável como Joe Lobruto, Rosamund Pike dá cor à vida de Beachum no papel de Nikki Gardner, e Billy Burke, como o detetive Nunally, é uma das figuras mais trágicas do filme. Fiona Shaw, como juíza, e Cliff Curtis, como o investigador Flores, têm menos tempo em cena, mas ambos dão um pano de fundo convincente à história.
Gregory Hoblit, mestre discreto da tensão
A direção de Gregory Hoblit não é exibida, e aqui isso é uma ótima escolha. Um Crime de Mestre não é filme de ação, não tem perseguição de carro nem tiroteio espetacular a cada dez minutos. É um thriller construído devagar, apoiado em diálogos e expressões, em que a tensão nasce das conversas, dos olhares e das batalhas no tribunal.
Hoblit entende que, com dois atores desse nível, o melhor é deixá-los trabalhar. A câmera não é invasiva, as imagens são elegantes e os ambientes, principalmente a casa de Crawford, são frios e de uma precisão estéril, assim como o dono. Essa contenção visual reflete muito bem o interior do personagem. Nos 113 minutos de duração quase não há tempo morto, embora no miolo apareçam uma ou duas cenas em que o ritmo cai um pouco.
Onde a engrenagem range
Perfeito o filme não é. Algumas tramas paralelas, sobretudo a vida pessoal de Beachum, são menos empolgantes que o conflito principal e às vezes parecem estar ali só para preencher tempo. E quem já viu muitos thrillers jurídicos e de tribunal pode achar certas soluções familiares e talvez sacar as reviravoltas antes do que o filme gostaria.
A trilha sonora também é mais funcional do que memorável: cumpre o papel, sublinha a tensão, mas não fica na cabeça depois. A arquitetura lógica às vezes testa bastante a nossa boa vontade, mas, sinceramente, num filme desse tipo a gente tende a perdoar quando está se divertindo tanto. E é o caso aqui.
O maior risco, na verdade, é que o filme se apoia tanto na dupla Hopkins e Gosling que, quando nenhum dos dois está em cena, a tensão cai visivelmente. Felizmente, isso acontece pouco.
Para quem é?
- É para você se: Para quem gosta de thrillers inteligentes e movidos a diálogo, dramas de tribunal e grandes duelos de atuação. Obrigatório para fãs de Hopkins e Gosling.
- Melhor pular se: Quem espera ação frenética, muito espetáculo visual ou emoções sangrentas pode se decepcionar, porque este é um thriller de construção lenta e cheio de conversa.
Se gostar, veja também: O Silêncio dos Inocentes (1991), O Homem que Fazia Chover (1997), As Duas Faces de um Crime (1996), Advogado do Diabo (1997), O Veredito (1982)
Perguntas frequentes
Qual é a história de Um Crime de Mestre?
Ted Crawford descobre que a jovem esposa o trai e planeja um assassinato perfeito. Mesmo tendo confessado o crime, o ambicioso promotor assistente Willy Beachum, que pega o caso, vai se enrolando cada vez mais enquanto Crawford mexe os pauzinhos.
Quando Um Crime de Mestre estreou no Brasil?
O filme estreou nos cinemas brasileiros em 11 de maio de 2007.
Qual é a duração de Um Crime de Mestre?
O filme tem 113 minutos.
Quem está no elenco de Um Crime de Mestre?
Os protagonistas são Anthony Hopkins (Ted Crawford) e Ryan Gosling (Willy Beachum), ao lado de David Strathairn, Rosamund Pike, Embeth Davidtz, Billy Burke, Cliff Curtis e Fiona Shaw.
Quem dirigiu Um Crime de Mestre?
O filme foi dirigido por Gregory Hoblit.
Qual é o título original de Um Crime de Mestre?
O título original é Fracture, uma coprodução entre Alemanha e Estados Unidos.
Ainda vale a pena encarar o duelo entre Hopkins e Gosling?
Sem dúvida. Um Crime de Mestre não revolucionou o gênero, mas sabe exatamente o que quer e faz isso muito bem. É um thriller enxuto, elegante e inteligente, que aposta no confronto entre dois ótimos atores e, com isso, eleva bastante a aposta. O sorriso de Hopkins vai assombrar você por dias, e Gosling mostra por que virou depois um dos atores mais requisitados de Hollywood.
Se você quer uma noite em que não precisa de explosões nem de mil cortes para ficar na ponta da cadeira, este filme é uma boa escolha. Prepare um café, apague a luz e veja uma confissão se transformar no caso mais difícil de ganhar do mundo.
