A Estrada crítica: a carta de amor mais silenciosa e cruel do fim do mundo, de pai para filho
Tem filme que a gente assiste uma vez na vida e depois carrega no peito por anos. A Estrada é exatamente assim: um drama pós-apocalíptico sem super-heróis, sem explosões espetaculares e sem reviravoltas redentoras. Só um pai, um filho, um carrinho de supermercado caindo aos pedaços e a pergunta se ainda faz sentido ser humano. O filme de John Hillcoat não está aqui para entreter. Ele vai torcendo o espectador devagar, com método, e é justamente por isso que eu gosto tanto dele.
Um drama de sobrevivência cruel, cinzento e de uma honestidade implacável, que Viggo Mortensen, em uma das melhores atuações da carreira, leva ao topo do gênero.
Ficha do filme
| Original | The Road |
|---|---|
| Estreia no Brasil | 23/04/2010 |
| Direção | John Hillcoat |
| Elenco | Viggo Mortensen, Kodi Smit-McPhee, Charlize Theron, Robert Duvall, Guy Pearce, Molly Parker |
| Gênero | Filmes de aventura, Dramas |
| Duração | 111 min |
| Classificação | 16 |
| País | Filmes americanos |
Sobre o que é A Estrada? Cinzas, fome e um carrinho de supermercado
A premissa é simples ao extremo, e é isso que faz tudo funcionar. Muitos anos atrás, os Estados Unidos foram atingidos por uma catástrofe misteriosa. A energia acabou, veio a fome e os sobreviventes se voltaram uns contra os outros. Quando o filme começa, a civilização já é só lembrança: gangues dominam o interior, a violência virou a única lei e todo mundo vive pelo próximo bocado de comida.
É nesse mundo que um pai e seu filho pegam a estrada rumo ao oceano. Tudo o que eles têm cabe num carrinho de supermercado velho. Todo santo dia precisam lutar por comida, contra o frio, contra a natureza e contra quem já abandonou a própria humanidade faz tempo. O único apoio que lhes resta é um ao outro: as lembranças e o amor que ainda sobrevive entre os dois.
O filme não explica nada. Não ficamos sabendo o que aconteceu de fato, e acho isso um acerto em cheio. A causa da catástrofe é irrelevante aqui. A questão não é como o mundo acabou, e sim o que sobra de nós depois disso.
Viggo Mortensen como você nunca viu
Quem conhece Viggo Mortensen principalmente como o Aragorn de O Senhor dos Anéis vai levar um susto. A postura de rei, o carisma, o heroísmo de espada na mão somem por completo. No lugar disso, temos um pai faminto, magro até o osso, sempre aterrorizado, com o cansaço e o medo de não conseguir proteger o filho estampados em cada gesto.
A atuação de Mortensen é genial porque nunca tenta agradar. O pai às vezes é duro, às vezes cruel, às vezes toma decisões com as quais nem o espectador concorda. Mesmo assim, a gente sente o tempo todo que tudo vem de uma única coisa: o amor incondicional pelo filho. É um dos retratos de pai mais dolorosos que já vi numa tela de cinema.
Kodi Smit-McPhee, no papel do menino, é impressionante. Raramente se vê um ator mirim com uma atuação tão natural, sem nenhum maneirismo. Ele é a bússola moral do filme: é o garoto quem ainda pergunta, quem ainda sente pena do estranho, quem ainda acredita que existem pessoas boas. A química entre os dois sustenta o filme inteiro, e não encontrei um único momento falso ali.
Coadjuvantes que ficam gravados em poucos minutos
À primeira vista, o elenco pode parecer exagerado para um drama tão intimista, mas Hillcoat sabe usar bem suas estrelas. Charlize Theron vive a mãe e, embora tenha menos tempo em cena, suas sequências são pesadas, fantasmagóricas. Vencedora do Oscar por Monster: Desejo Assassino, Theron mostra mais uma vez que consegue contar uma tragédia inteira com poucos olhares.
O velho Eli, de Robert Duvall, é um dos episódios mais memoráveis do filme. A lenda de O Poderoso Chefão e Apocalypse Now constrói em pouquíssimo tempo uma figura ao mesmo tempo patética, sábia e assustadora. Guy Pearce como o veterano, Molly Parker como a mulher gentil, Michael Kenneth Williams como o ladrão e Garret Dillahunt como o membro da gangue são peças pequenas, mas precisas, desse mosaico. Cada encontro é mais uma prova: em quem ainda dá para confiar nesse mundo?
O mundo cinza-cinza de John Hillcoat
A direção de John Hillcoat é contida, e isso é um elogio. Ele não quer transformar o fim do mundo em filme de ação nem esfregar o horror na cara do público, por mais que pudesse. A violência paira no ar o tempo todo, mas boa parte da tensão nasce da espera, do silêncio, dos galhos estalando e dos sons distantes.
O visual é impressionante, do seu jeito deprimente. Florestas queimadas, céu cinzento, estradas cobertas de cinzas, casas abandonadas. A fotografia praticamente suga todas as cores, e quando a luz quente aparece em alguma lembrança, chega a doer fisicamente. Poucas vezes vi um filme capaz de fazer a gente sentir tanto o frio e a fome.
A trilha e o desenho de som reforçam a mesma melancolia. Nada de música estridente: são melodias sutis, tristes, e muito, muito silêncio. Ao longo dos 111 minutos, Hillcoat sustenta esse clima opressivo e, ao mesmo tempo, terno.
Onde dói demais e onde o ritmo cai?
Vou ser sincero: A Estrada não é para todo mundo, e nem tenta esconder isso. O ritmo é lento, a história é episódica, e quem espera um arco narrativo clássico com grandes reviravoltas pode se decepcionar. Há trechos em que o filme praticamente só caminha para frente, passo a passo, e aí o espectador mais impaciente pode perder o fio.
O outro risco é o próprio clima. Esse filme quase não deixa a gente respirar. Desesperança, fome, medo, e depois tudo de novo. Eu valorizo justamente isso, mas entendo quem, lá pela segunda hora, ache que é demais. Não é filme de pipoca para sábado à noite, e é preciso encarar isso.
- O que funciona: a dupla Mortensen e Smit-McPhee, o visual fantasmagórico, a direção contida.
- O que pode dividir opiniões: o ritmo lento, a estrutura episódica e o clima opressivo quase sem pausa.
Por que é mais do que um filme de sobrevivência?
O gênero pós-apocalíptico está cheio de armas, perseguições de carro e heróis guerreiros. A Estrada, ao contrário, é quase meditativo: mostra o fim do mundo não como espetáculo, mas como prova moral. O que significa continuar sendo bom quando a bondade virou um luxo mortal? Até quando dá para proteger a inocência de uma criança, e será que isso é sequer permitido?
O verdadeiro tema do filme é a paternidade. Aquele tipo de amor que se sobrepõe a tudo, teimoso, às vezes cego, e que é a última coisa que ainda dá sentido à existência. É isso que torna A Estrada ao mesmo tempo cruel e profundamente terno. E assistir sendo pai ou mãe é uma experiência completamente diferente: esteja preparado.
Para quem é?
- É para você se: Para quem gosta de dramas densos que se constroem devagar, de grandes atuações e de histórias pós-apocalípticas livres dos clichês do gênero.
- Melhor pular se: Para quem procura ação acelerada, batalhas espetaculares ou um passatempo leve, e para quem sofre com climas desesperançados e opressivos.
Se gostar, veja também: Filhos da Esperança (2006), O Livro de Eli (2010), Mad Max (1979), Um Lugar Silencioso (2018)
Perguntas frequentes
Sobre o que é A Estrada?
Depois de uma catástrofe misteriosa que destruiu a civilização americana, um pai e seu filho partem rumo ao oceano. Levam tudo o que têm num carrinho de supermercado e precisam enfrentar todos os dias a fome, a natureza e a violência das gangues.
Quanto tempo dura A Estrada?
O filme tem 111 minutos de duração.
Quando A Estrada estreou no Brasil?
A Estrada estreou nos cinemas brasileiros em 23 de abril de 2010.
Quem dirigiu A Estrada?
O filme foi dirigido por John Hillcoat.
Quem está no elenco de A Estrada?
Os protagonistas são Viggo Mortensen (o pai) e Kodi Smit-McPhee (o filho), ao lado de Charlize Theron, Robert Duvall, Guy Pearce, Molly Parker, Michael Kenneth Williams e Garret Dillahunt.
Qual é o título original de A Estrada?
O título original é The Road, e trata-se de uma produção americana.
Você aguenta percorrer essa estrada?
A Estrada não é um filme fácil, nem quer ser. É lento, cinzento, doloroso e, às vezes, quase insuportavelmente opressivo. Mesmo assim, tem algo que poucos filmes de fim do mundo conseguem: uma humanidade profunda e silenciosa. Pela dupla Viggo Mortensen e Kodi Smit-McPhee, é obrigatório para quem leva cinema a sério. Se você encarar, prepare-se para ficar um bom tempo sentado no escuro depois dos créditos. Para mim, é um dos filmes mais fortes do gênero, e digo sem medo: uma das melhores histórias de pai e filho dos últimos anos.
