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Crítica antes da estreia

Rose: crítica antecipada. Sandra Hüller volta da guerra como soldado, e a paz vira o verdadeiro campo de batalha

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Tem atriz que, só pelo nome no cartaz, já me faz comprar o ingresso, e Sandra Hüller é exatamente esse caso. Em Rose, drama histórico alemão e austríaco, ela interpreta uma mulher que lutou na guerra como homem e, de volta para casa, quer continuar vivendo como homem. Esta crítica antecipada fala do que podemos esperar e de por que este pode ser um dos filmes mais duros e mais silenciosos do ano.

8,0/10
Nota esperada
No papel, está tudo pronto para um retrato de época incomodamente preciso, sustentado por uma grande atuação. A dúvida é o quanto um filme de forma tão rigorosa vai ter coragem de se abrir.
História
8
Atuação
9
Direção
8
Visual
8
Música e som
7
Emoção
8

A nota geral é a média dos seis critérios.

Ficha do filme

DireçãoMarkus Schleinzer
ElencoSandra Hüller, Caro Braun, Godehard Giese, Robert Gwisdek, Johannes Schubert
GêneroDramas históricos
Duração94 min
PaísFilmes alemães, Filmes austríacos

Do que trata Rose, sem spoilers?

Estamos no começo do século 17. Rose lutou na guerra como homem, passou pelo inferno dos campos de batalha de Brabante e, ao voltar para a tranquilidade do interior, não quer se enfiar de novo no papel antigo. Quer seguir a vida como homem. E o desejo dela é de uma simplicidade desconcertante: ser um bom cidadão, um membro útil da comunidade, alguém que trabalha, vive com honestidade e não chama atenção.

Só que é justamente aí que mora a questão. No mundo para onde Rose volta, as regras são rígidas e a comunidade tolera pouco quem foge do padrão. Segundo a sinopse oficial, o filme se apoia na tensão entre as normas sociais e a identidade pessoal, que fica cada vez mais evidente à medida que Rose tenta se encaixar. Mais do que isso sobre a trama a gente não sabe, e sinceramente não faz falta: em filmes assim, o como importa muito mais do que o quê.

O que eu já adoro nessa premissa é a inversão. Filmes de guerra costumam mostrar o front como o inferno. Aqui, ao que parece, o campo de batalha é só a antessala. O verdadeiro cerco começa em casa, no olhar dos vizinhos, nos bancos da igreja, na rotina de todo dia.

Sandra Hüller, ou por que não há o que temer quanto à protagonista

Quem acompanhou o cinema europeu dos últimos anos não precisa ser apresentado a Sandra Hüller. Desde Toni Erdmann sabemos que ela consegue ser ao mesmo tempo rígida ao extremo e dolorosamente vulnerável, e Anatomia de uma Queda mostrou que um único movimento do rosto dela basta para colocar em dúvida tudo o que a plateia está pensando. Depois da dona de casa fria e assustadora de Zona de Interesse, dá para afirmar sem medo: poucas atrizes hoje têm tão pouco receio da antipatia, da frieza, do desconforto.

A personagem de Rose pede exatamente esse tipo de atriz. Alguém que busca, com todo o seu ser, ficar invisível, porque se encaixar é condição de sobrevivência. Isso é mais difícil de interpretar do que um grande papel dramático cheio de gritos. Aqui tudo passa pelo silêncio, pela postura, pela voz e pelo olhar, e nisso Hüller está imbatível neste momento.

Ao lado dela, o elenco traz Caro Braun, Godehard Giese, Robert Gwisdek e Johannes Schubert. Quem cada um interpreta ainda não sabemos, mas num drama de câmara como este o rosto da comunidade importa tanto quanto o da protagonista. Depende deles que a vila, a cidade, o entorno vire uma ameaça viva, que respira, e não apenas cenário.

Markus Schleinzer, o mestre dos silêncios incômodos

O nome de Markus Schleinzer pode soar familiar por causa de Michael, sua estreia de 2011: um filme implacavelmente frio, de precisão quase clínica, que não explicava, não facilitava e não pedia desculpas. Se eu partir daí, Rose não vai ser um filme de época agradável e acolhedor, e eu encaro isso como uma promessa.

Uma das vertentes do cinema austríaco, da qual Schleinzer faz parte, adora o distanciamento. A câmera não se empolga, não chora junto com os personagens, prefere observar como uma testemunha severa. Numa história em que a vigilância constante da comunidade é a própria pressão, esse estilo pode ser um acerto em cheio. O espectador examina Rose do mesmo jeito que as pessoas ao redor dela e, de forma constrangedora, vira cúmplice.

Os 94 minutos de duração também dizem muito. Não é um desfile de reconstituição histórica de três horas, e sim um filme enxuto e compacto, sinal de que Schleinzer sabe exatamente o que quer dizer e não pretende ficar um minuto a mais do que o necessário.

O que pode fazer dele um grande filme

Tenho três motivos para estar bem otimista:

Além disso, o motivo do veterano que volta da guerra já é forte por si só. Rose é estrangeira não apenas pela identidade, mas também porque viu algo que quem ficou para trás não viu. Se o filme conseguir trabalhar essas duas camadas juntas, podemos ganhar um drama muito rico, aberto a várias leituras.

Onde ele pode tropeçar?

Vou ser sincero: o cinema autoral europeu mais rigoroso tem suas armadilhas. Se Schleinzer ficar frio demais, o espectador pode ficar do lado de fora, e Rose pode virar uma obra bonita, respeitável, mas um pouco sem vida, mais admirada do que sentida. O outro risco dos filmes de época é o didatismo: se cada cena sublinhar que a comunidade é cruel e Rose é vítima, a complexidade vai embora.

A outra interrogação é o ritmo. A duração curta é um bom sinal, mas o estilo lento e observador não agrada a todo mundo. Quem espera um filme histórico agitado, cenas de batalha ou reviravoltas espetaculares provavelmente vai se decepcionar. A guerra aqui, pelo menos a julgar pela sinopse, é mais passado do que presente.

Para quem é?

Se gostar, veja também: Orlando (1992), Albert Nobbs (2011), A Fita Branca (2009), Retrato de uma Jovem em Chamas (2019), Zona de Interesse (2023)

Perguntas frequentes

Do que trata Rose?

A história se passa no começo do século 17: Rose lutou na guerra como homem e, ao voltar dos campos de batalha de Brabante, quer continuar vivendo como homem, como um bom cidadão e membro útil da comunidade, enquanto tenta se encaixar num mundo regido por regras rígidas.

Qual é a duração de Rose?

O filme tem 94 minutos.

Quem dirige Rose e quem está no elenco?

A direção é de Markus Schleinzer. Sandra Hüller é a protagonista, ao lado de Caro Braun, Godehard Giese, Robert Gwisdek e Johannes Schubert.

Quais países produziram o filme?

Rose é uma coprodução entre Alemanha e Áustria.

Vale a pena sentar no banco da igreja ao lado de Rose?

Para mim, vale, e mais: este é um filme que eu aguardo de verdade. Não porque promete uma noite tranquila, mas porque tudo nele indica que faz uma pergunta real e não vai dar uma resposta barata. Sandra Hüller é hoje uma das atrizes mais instigantes do cinema europeu, e Markus Schleinzer é um diretor que não tem medo do desconforto. Minha expectativa é alta, e se o filme conseguir encontrar o calor por trás do rigor, pode facilmente se tornar um dos dramas mais marcantes do ano. Quando ele chegar, vou estar lá, e desconfio que vou passar dias sem conseguir tirá-lo da cabeça.

Nota esperada: 8,0/10 · História 8 · Atuação 9 · Direção 8 · Visual 8 · Música e som 7 · Emoção 8