Rose: crítica antecipada. Sandra Hüller volta da guerra como soldado, e a paz vira o verdadeiro campo de batalha
Tem atriz que, só pelo nome no cartaz, já me faz comprar o ingresso, e Sandra Hüller é exatamente esse caso. Em Rose, drama histórico alemão e austríaco, ela interpreta uma mulher que lutou na guerra como homem e, de volta para casa, quer continuar vivendo como homem. Esta crítica antecipada fala do que podemos esperar e de por que este pode ser um dos filmes mais duros e mais silenciosos do ano.
No papel, está tudo pronto para um retrato de época incomodamente preciso, sustentado por uma grande atuação. A dúvida é o quanto um filme de forma tão rigorosa vai ter coragem de se abrir.
Ficha do filme
| Direção | Markus Schleinzer |
|---|---|
| Elenco | Sandra Hüller, Caro Braun, Godehard Giese, Robert Gwisdek, Johannes Schubert |
| Gênero | Dramas históricos |
| Duração | 94 min |
| País | Filmes alemães, Filmes austríacos |
Do que trata Rose, sem spoilers?
Estamos no começo do século 17. Rose lutou na guerra como homem, passou pelo inferno dos campos de batalha de Brabante e, ao voltar para a tranquilidade do interior, não quer se enfiar de novo no papel antigo. Quer seguir a vida como homem. E o desejo dela é de uma simplicidade desconcertante: ser um bom cidadão, um membro útil da comunidade, alguém que trabalha, vive com honestidade e não chama atenção.
Só que é justamente aí que mora a questão. No mundo para onde Rose volta, as regras são rígidas e a comunidade tolera pouco quem foge do padrão. Segundo a sinopse oficial, o filme se apoia na tensão entre as normas sociais e a identidade pessoal, que fica cada vez mais evidente à medida que Rose tenta se encaixar. Mais do que isso sobre a trama a gente não sabe, e sinceramente não faz falta: em filmes assim, o como importa muito mais do que o quê.
O que eu já adoro nessa premissa é a inversão. Filmes de guerra costumam mostrar o front como o inferno. Aqui, ao que parece, o campo de batalha é só a antessala. O verdadeiro cerco começa em casa, no olhar dos vizinhos, nos bancos da igreja, na rotina de todo dia.
Sandra Hüller, ou por que não há o que temer quanto à protagonista
Quem acompanhou o cinema europeu dos últimos anos não precisa ser apresentado a Sandra Hüller. Desde Toni Erdmann sabemos que ela consegue ser ao mesmo tempo rígida ao extremo e dolorosamente vulnerável, e Anatomia de uma Queda mostrou que um único movimento do rosto dela basta para colocar em dúvida tudo o que a plateia está pensando. Depois da dona de casa fria e assustadora de Zona de Interesse, dá para afirmar sem medo: poucas atrizes hoje têm tão pouco receio da antipatia, da frieza, do desconforto.
A personagem de Rose pede exatamente esse tipo de atriz. Alguém que busca, com todo o seu ser, ficar invisível, porque se encaixar é condição de sobrevivência. Isso é mais difícil de interpretar do que um grande papel dramático cheio de gritos. Aqui tudo passa pelo silêncio, pela postura, pela voz e pelo olhar, e nisso Hüller está imbatível neste momento.
Ao lado dela, o elenco traz Caro Braun, Godehard Giese, Robert Gwisdek e Johannes Schubert. Quem cada um interpreta ainda não sabemos, mas num drama de câmara como este o rosto da comunidade importa tanto quanto o da protagonista. Depende deles que a vila, a cidade, o entorno vire uma ameaça viva, que respira, e não apenas cenário.
Markus Schleinzer, o mestre dos silêncios incômodos
O nome de Markus Schleinzer pode soar familiar por causa de Michael, sua estreia de 2011: um filme implacavelmente frio, de precisão quase clínica, que não explicava, não facilitava e não pedia desculpas. Se eu partir daí, Rose não vai ser um filme de época agradável e acolhedor, e eu encaro isso como uma promessa.
Uma das vertentes do cinema austríaco, da qual Schleinzer faz parte, adora o distanciamento. A câmera não se empolga, não chora junto com os personagens, prefere observar como uma testemunha severa. Numa história em que a vigilância constante da comunidade é a própria pressão, esse estilo pode ser um acerto em cheio. O espectador examina Rose do mesmo jeito que as pessoas ao redor dela e, de forma constrangedora, vira cúmplice.
Os 94 minutos de duração também dizem muito. Não é um desfile de reconstituição histórica de três horas, e sim um filme enxuto e compacto, sinal de que Schleinzer sabe exatamente o que quer dizer e não pretende ficar um minuto a mais do que o necessário.
O que pode fazer dele um grande filme
Tenho três motivos para estar bem otimista:
- O tema é atemporal, mas não está ali por modismo. O cenário do século 17 afasta a questão dos debates atuais e, justamente por isso, pode deixá-la mais afiada. Uma comunidade presa a uma ordem rígida, uma pessoa que só quer existir em paz: isso vale em qualquer época, em qualquer lugar.
- A protagonista. Pela trajetória de Sandra Hüller, é difícil imaginar que ela não entregue uma atuação marcante.
- A mão do diretor. Schleinzer não é cineasta de respostas reconfortantes, e nesta história a saída fácil seria o maior pecado.
Além disso, o motivo do veterano que volta da guerra já é forte por si só. Rose é estrangeira não apenas pela identidade, mas também porque viu algo que quem ficou para trás não viu. Se o filme conseguir trabalhar essas duas camadas juntas, podemos ganhar um drama muito rico, aberto a várias leituras.
Onde ele pode tropeçar?
Vou ser sincero: o cinema autoral europeu mais rigoroso tem suas armadilhas. Se Schleinzer ficar frio demais, o espectador pode ficar do lado de fora, e Rose pode virar uma obra bonita, respeitável, mas um pouco sem vida, mais admirada do que sentida. O outro risco dos filmes de época é o didatismo: se cada cena sublinhar que a comunidade é cruel e Rose é vítima, a complexidade vai embora.
A outra interrogação é o ritmo. A duração curta é um bom sinal, mas o estilo lento e observador não agrada a todo mundo. Quem espera um filme histórico agitado, cenas de batalha ou reviravoltas espetaculares provavelmente vai se decepcionar. A guerra aqui, pelo menos a julgar pela sinopse, é mais passado do que presente.
Para quem é?
- É para você se: Para fãs de Sandra Hüller, apaixonados por cinema autoral europeu e qualquer pessoa que goste de dramas históricos de construção lenta, sufocantes e que fazem pensar.
- Melhor pular se: Para quem procura romance de época leve, ação de guerra espetacular ou ritmo acelerado, este filme provavelmente vai ser silencioso e duro demais.
Se gostar, veja também: Orlando (1992), Albert Nobbs (2011), A Fita Branca (2009), Retrato de uma Jovem em Chamas (2019), Zona de Interesse (2023)
Perguntas frequentes
Do que trata Rose?
A história se passa no começo do século 17: Rose lutou na guerra como homem e, ao voltar dos campos de batalha de Brabante, quer continuar vivendo como homem, como um bom cidadão e membro útil da comunidade, enquanto tenta se encaixar num mundo regido por regras rígidas.
Qual é a duração de Rose?
O filme tem 94 minutos.
Quem dirige Rose e quem está no elenco?
A direção é de Markus Schleinzer. Sandra Hüller é a protagonista, ao lado de Caro Braun, Godehard Giese, Robert Gwisdek e Johannes Schubert.
Quais países produziram o filme?
Rose é uma coprodução entre Alemanha e Áustria.
Vale a pena sentar no banco da igreja ao lado de Rose?
Para mim, vale, e mais: este é um filme que eu aguardo de verdade. Não porque promete uma noite tranquila, mas porque tudo nele indica que faz uma pergunta real e não vai dar uma resposta barata. Sandra Hüller é hoje uma das atrizes mais instigantes do cinema europeu, e Markus Schleinzer é um diretor que não tem medo do desconforto. Minha expectativa é alta, e se o filme conseguir encontrar o calor por trás do rigor, pode facilmente se tornar um dos dramas mais marcantes do ano. Quando ele chegar, vou estar lá, e desconfio que vou passar dias sem conseguir tirá-lo da cabeça.
