A Última Rodada, crítica antecipada: uma jornada de bar em bar pela planície vêneta, onde ninguém dispensa a saideira
Tem filme cujo lema daria para pintar na parede de um boteco: nunca recuse a saideira. A comédia de Francesco Sossai, que estreou em Cannes, promete ser exatamente isso, com dois cinquentões falidos, mas mestres na arte de viver, e um rapaz que se mete com a turma errada, na hora errada e no lugar errado. E a gente está bem curioso para ver no que isso vai dar.
Promete ser um road movie italiano encantador, melancólico e provavelmente de ressaca braba, capaz de evocar o espírito das grandes comédias italianas.
Ficha do filme
| Original | Le città di pianura |
|---|---|
| Direção | Francesco Sossai |
| Elenco | Filippo Scotti, Sergio Romano, Pierpaolo Capovilla, Roberto Citran, Andrea Pennacchi |
| Gênero | Comédias |
| Duração | 100 min |
| País | Filmes italianos, Filmes alemães |
Do que se trata? Duas raposas velhas e um cordeiro entre os bares
A premissa é tão simples que chega a ser suspeita, mas histórias assim nunca dependeram de reviravoltas mirabolantes. Temos dois sujeitos na casa dos cinquenta, sempre com o bolso vazio, Carlobianchi e Doriano, que seguem uma única filosofia de vida: nunca recuse a saideira. Essa frase sozinha já diz mais sobre eles do que uma página inteira de descrição. São aqueles caras que estão sempre encostados no balcão, que têm uma história para tudo e que, de algum jeito, ficaram um pouco para trás na própria vida.
No caminho deles aparece Giulio, um estudante de arquitetura tímido, que claramente tem seus planos, inclusive amorosos. Pela sinopse, o encontro vira uma aventura caótica pela planície vêneta, e os maus conselhos, a ressaca e uma amizade inesperada acabam bagunçando tudo o que o rapaz tinha imaginado. Para onde exatamente a história vai, não sabemos, e sinceramente nem queremos saber antes da hora. Metade da graça de filmes assim está em deixar o espectador ser levado junto com os personagens.
A planície vêneta, onde ninguém anda de gôndola
O que mais me deixou curioso foi o cenário. Não estamos falando da Veneza de cartão-postal, e sim da planície vêneta, daquela Itália do interior, das cidadezinhas e vilarejos que a gente raramente vê no cinema. Aqui não tem vista da Praça São Marcos, mas tem estrada vicinal, bar de vila, campo coberto de neblina e gente que não cabe em comercial de turismo.
O próprio filme se apresenta como uma homenagem à diversidade da Itália, e isso já se sente na escolha do lugar. Se Sossai souber trabalhar a paisagem, a planície pode virar personagem: um lugar onde o tempo corre mais devagar e onde uma noite rodando de bar em bar pode parecer uma vida inteira. Torço muito para que o filme tenha coragem de ser lento quando precisar.
Francesco Sossai e a sombra dos grandes mestres
O nome de Francesco Sossai provavelmente ainda não soa familiar para o público brasileiro, mas o currículo do filme fala por si: a estreia foi no Festival de Cannes, o que é uma baita carta de recomendação para uma comédia em coprodução entre Itália e Alemanha. Cannes não é lugar de simples desfile de piadas, então dá para esperar um humor mais fino e agridoce.
A maior ambição, porém, é que o filme se assume como uma homenagem aos grandes nomes do cinema italiano. É uma declaração ousada. A comédia italiana tem uma tradição impressionante, da commedia all'italiana a toda uma galeria de vagabundos e boas-vidas que são ao mesmo tempo ridículos e humanos de apertar o coração. Se Sossai bebe dessa fonte, parte de um bom lugar. O risco, claro, é a nostalgia escorregar para a mera citação. Eu aposto que não vai ser o caso.
O elenco: rostos pouco conhecidos que merecem atenção
No elenco, Filippo Scotti é o nome mais conhecido do público internacional: ele protagonizou A Mão de Deus, de Paolo Sorrentino, e ali traduziu com muita delicadeza a insegurança e a sensibilidade de um adolescente. Por isso parece uma escolha perfeita para o tímido Giulio, que vai sendo arrastado pelos acontecimentos.
Ao lado dele estão Sergio Romano, Pierpaolo Capovilla, Roberto Citran e Andrea Pennacchi. São nomes menos familiares por aqui, mas isso pode ser justamente um dos trunfos do filme: nesse tipo de história, convence muito mais ver rostos em quem a gente acredita do que estrelas fantasiadas de frequentadores de boteco cinquentões. A alma de uma comédia de parceiros é sempre a química, e se a dupla Carlobianchi e Doriano funcionar, metade do caminho já está feito.
O que pode dar muito certo e onde pode tropeçar?
Vamos ao que joga a favor:
- A ideia central é simples e universal. Todo mundo conhece um Carlobianchi ou um Doriano e, vamos admitir, todo mundo já foi um pouco Giulio.
- O choque de gerações pode render tanto humor quanto emoção. O encontro de uma geração que ficou para trás com um jovem cheio de dúvidas raramente não funciona.
- A estreia em Cannes sugere um humor nada escandaloso, mas cheio de personalidade e próximo das pessoas.
E quais são os riscos?
- Filmes de bar em bar podem ficar repetitivos facilmente: mais um bar, mais uma dose, mais um monólogo de bêbado. Sem um arco por trás, o espectador cansa rápido.
- A homenagem nostálgica pode ser bonita, mas também pode ficar fechada demais em si mesma.
- Os 100 minutos de duração são ideais, mas se o ritmo vacilar, um filme de estrutura tão solta pode arrastar no meio.
Para quem é?
- É para você se: Para quem gosta do humor melancólico do cinema italiano, de road movies movidos pelos personagens e daquelas histórias em que uma noite por acaso muda tudo.
- Melhor pular se: Para quem quer uma comédia hollywoodiana acelerada e lotada de piadas, ou para quem se incomoda quando um filme aposta mais no clima do que nas reviravoltas.
Se gostar, veja também: Aquele que Sabe Viver (1962), A Mão de Deus (2021), Sideways: Entre Umas e Outras (2004), Druk: Mais uma Rodada (2020)
Perguntas frequentes
Sobre o que é A Última Rodada?
Dois cinquentões sem dinheiro, Carlobianchi e Doriano, conhecem Giulio, um estudante de arquitetura tímido, e o encontro vira uma aventura caótica pela planície vêneta que vira de cabeça para baixo até os planos amorosos do rapaz.
Quanto tempo dura o filme?
A Última Rodada tem 100 minutos de duração.
Quem dirigiu A Última Rodada?
O filme é dirigido por Francesco Sossai e estreou no Festival de Cannes.
Quem está no elenco?
Os papéis principais ficam com Filippo Scotti, Sergio Romano, Pierpaolo Capovilla, Roberto Citran e Andrea Pennacchi.
Você topa sentar com eles para mais uma rodada?
Eu topo, com certeza. A Última Rodada não está entre os grandes blockbusters cheios de efeitos, e é justamente por isso que empolga. Promete ser uma comédia italiana pequena, do tamanho das pessoas, que pela estreia em Cannes e pela homenagem ousada quer mais do que só arrancar risadas. Se Sossai acertar o tom entre o riso e a melancolia, pode ser uma das boas surpresas da temporada. Minha nota esperada é um 7 bem firme, daqueles filmes que dão vontade de ligar para um velho amigo depois da sessão. Só cuidado com aquela saideira.
