Pinóquio, crítica: o boneco de madeira que, mais de oitenta anos depois, ainda emociona e assusta
Tem história que embala e tem história que sacode, e Pinóquio faz as duas coisas sem pedir licença. O boneco de madeira da Disney ganha vida numa noite estrelada e, a partir daí, o filme monta ao redor dele um verdadeiro parque de diversões moral que deixa até o espectador de hoje de queixo caído. Revi já adulto e preciso confessar: o filme é muito mais corajoso, sombrio e bonito do que eu lembrava.
Pinóquio não é peça empoeirada de museu. É uma fábula lindamente desenhada e surpreendentemente dura, que segue entre os pontos mais altos de toda a obra da Disney.
Ficha do filme
| Original | Pinocchio |
|---|---|
| Estreia no Brasil | 02/09/1940 |
| Direção | Hamilton Luske, Ben Sharpsteen, T. Hee, Wilfred Jackson, Norman Ferguson, Jack Kinney, Bill Roberts |
| Elenco | Dickie Jones, Cliff Edwards, Christian Rub, Evelyn Venable, Walter Catlett, Mel Blanc |
| Gênero | Filmes de animação, Filmes para a família, Filmes de fantasia |
| Duração | 88 min |
| Classificação | L |
| País | Filmes americanos |
Um entalhador solitário e um desejo que se realiza
A premissa é tão simples que parece cantiga de roda: Gepeto, um velho entalhador solitário, esculpe um boneco e o batiza de Pinóquio. Numa noite mágica, uma fada dá vida à madeira, e o pequeno boneco parte rumo à grande aventura de toda criança: virar um menino de verdade, de carne e osso. Só que mágica não basta. Ele precisa merecer isso, mostrando coragem, lealdade e sinceridade.
E é aí que mora a virada que impede Pinóquio de ser um conto de fadas açucarado: o protagonista é ingênuo demais. Faz uma besteira atrás da outra, e o filme não passa pano. Pinóquio tropeça, confia nas pessoas erradas, toma decisões ruins, e as consequências às vezes são francamente assustadoras. É isso que torna a história verdadeira. Não estamos vendo o desfile triunfal de um herói perfeito, e sim uma criança aprendendo na própria pele o que é certo e o que é errado.
Não vou dar spoiler, claro, mas adianto uma coisa: quem só conhece o personagem dos livrinhos ou das propagandas vai se surpreender com o quanto o filme vai longe para colocar Pinóquio realmente à prova.
Grilo Falante, a consciência mais paciente do mundo
Se tem alguém que rouba a cena, é o Grilo Falante. O amiguinho sábio que gruda em Pinóquio para alertar, orientar e, quase sempre, falar sozinho. A voz de Cliff Edwards (no original) é tão calorosa, engraçada e humana que o grilo vira praticamente o coração do filme. É com ele que o espectador adulto se identifica: quem vê o problema chegando, tenta avisar e, mesmo assim, não desiste quando o boneco estraga tudo de novo.
Adoro que o Grilo não seja um sabichão certinho e pregador. Ele tem vaidade, tem cansaço, às vezes vacila também, e é justamente isso que o torna adorável. Para as crianças, ele é o amigo. Para os pais, funciona um pouco como espelho: é assim que é tentar educar alguém que, bem naquela hora, não quer te ouvir.
E não dá para esquecer o resto do elenco. O Gepeto de Christian Rub é tão bondoso e frágil que conquista a gente logo nas primeiras cenas. A Fada Azul de Evelyn Venable é etérea e reconfortante. E Dickie Jones, como a voz de Pinóquio, acerta em cheio aquele tom infantil, curioso e meio atrapalhado que deixa o personagem irritante e comovente ao mesmo tempo.
Vilões que ainda me dão arrepios
Um dos maiores trunfos de Pinóquio é sua galeria de vilões. Walter Catlett empresta a voz ao dissimulado e pomposo João Honesto (no original, "Honest John" Worthington Foulfellow), a tentação em pessoa: sorri, bajula e, enquanto isso, já está calculando o lucro. Ao lado dele está Gideão, cujos soluços são feitos por ninguém menos que Mel Blanc, lenda das vozes de desenho, que a maioria conhece pelos personagens dos Looney Tunes da Warner.
Charles Judels aparece em dois papéis: ele dubla Stromboli e o Cocheiro, e os dois são tão ameaçadores que os pequenos podem mesmo dar um pulo no sofá. Já Frankie Darro, como Espoleta, a má companhia, traz aquela voz de adolescente descolado e folgado que um boneco ingênuo, é claro, vai admirar.
O que mais me agrada: esses vilões não são caricaturas. Assustam porque são críveis. São exatamente o tipo de adulto e de mau amigo de que os pais sempre tentam proteger os filhos, e o filme mostra isso com uma franqueza surpreendente.
Sete diretores, um só clima: assim é a magia desenhada à mão
À primeira vista, os créditos assustam: Hamilton Luske, Ben Sharpsteen, T. Hee, Wilfred Jackson, Norman Ferguson, Jack Kinney e Bill Roberts aparecem todos como diretores. Sete nomes num filme de 88 minutos? Isso era parte natural do jeito como a Disney trabalhava no começo, com diferentes diretores cuidando de diferentes sequências. E o milagre é que o resultado não virou uma colcha de retalhos. Pinóquio é coeso, fluido, e o clima se mantém inteiro do começo ao fim.
O visual é simplesmente deslumbrante. Os detalhes minúsculos da oficina de Gepeto, os relógios e brinquedos entalhados em madeira, o jogo de luzes na noite estrelada: cada quadro parece uma pintura. Para olhos acostumados à animação digital de hoje, toda lisinha, chama atenção a quantidade de trabalho feito à mão e de detalhes caprichados. Não é exagero dizer que Pinóquio é uma das obras mais bonitas da animação tradicional.
O ritmo, claro, é diferente de um filme família atual. Às vezes ele se demora numa cena, deixando o visual e a música fazerem o trabalho. Eu curti muito isso, mas uma criança acostumada a tudo acelerado pode ficar um pouco impaciente de primeira.
Onde ele conquista, e onde pode pesar um pouco?
Vamos começar pelo que funciona:
- O visual, que ainda compete de igual para igual com as melhores animações.
- As vozes e a música, que fazem os personagens viverem e respirarem.
- O peso moral, que não fica só no discurso: aqui, coragem, lealdade e sinceridade têm preço de verdade.
- O Grilo Falante, impossível de não amar.
E o que impede um 10 cravado: a história às vezes é episódica, pula de aventura em aventura, e a ingenuidade do protagonista chega a ser quase irritante em certo momento. Claro que essa é a ideia, mas o adulto vai, aqui e ali, colocar a mão na cabeça pensando "Pinóquio, sério mesmo?". Além disso, alguns trechos do filme são de fato sombrios e assustadores. Para os menorzinhos, assistir junto com um adulto e conversar um pouco depois é muito recomendável.
Mas isso tudo é mais característica do que defeito. Pinóquio nasceu numa época em que conto de fadas ainda tinha coragem de dar medo, e acho que é por isso que ficou tão gravado na memória do público.
Por que vale a pena sentar para ver hoje?
Não é à toa que o filme é tratado como clássico obrigatório da Walt Disney, e eu concordo totalmente. Pinóquio não é só nostalgia. Continua atual falar que as crianças vivem cercadas de tentações, que os "amigos" barulhentos e atraentes nem sempre querem o bem delas e que mentira tem consequência. E o filme diz tudo isso divertindo, fazendo rir e, em alguns momentos, sacudindo de verdade.
É perfeito para uma sessão em família, principalmente se o adulto estiver ali junto, participando. Depois, rende uma ótima conversa: por que Pinóquio acreditou nas pessoas erradas? O que ele deveria ter feito? O que o Grilo Falante teria dito? Poucos filmes colocam essas perguntas na nossa mão com tanta naturalidade.
E, adulto, vale rever sozinho também. A experiência muda: você enxerga mais da solidão de Gepeto, da esperteza dos vilões e de quanto trabalho, carinho e arte existem em cada movimento desenhado.
Para quem é?
- É para você se: Para famílias com crianças que já não se assustam à toa, fãs de animação e qualquer pessoa que queira ver a magia da Disney desenhada à mão no seu auge. Para adultos nostálgicos, é revisão obrigatória.
- Melhor pular se: Para os muito pequenos, que se assustam com facilidade, e para quem só aguenta animação atual, acelerada e cheia de piadas. Para esse público, o ritmo mais lento e os trechos sombrios podem pesar.
Se gostar, veja também: Branca de Neve e os Sete Anões (1937), Fantasia (1940), Dumbo (1941), Bambi (1942), Cinderela (1950)
Perguntas frequentes
Sobre o que é Pinóquio?
Numa noite mágica, uma fada dá vida ao boneco de madeira de Gepeto, um entalhador solitário. Pinóquio precisa aprender coragem, lealdade e sinceridade para virar um menino de verdade, enquanto seu amigo sábio, o Grilo Falante, tenta livrá-lo das besteiras.
Quanto tempo dura Pinóquio?
O filme tem 88 minutos.
Quem dirigiu Pinóquio?
O filme foi dirigido por Hamilton Luske, Ben Sharpsteen, T. Hee, Wilfred Jackson, Norman Ferguson, Jack Kinney e Bill Roberts.
Quem faz as vozes de Pinóquio e do Grilo Falante?
Na versão original, Pinóquio é dublado por Dickie Jones e o Grilo Falante (Jiminy Cricket) por Cliff Edwards.
Qual é o gênero de Pinóquio?
É uma animação americana de fantasia para toda a família, um dos clássicos da Walt Disney.
Quando Pinóquio estreou no Brasil?
O filme chegou aos cinemas brasileiros em 2 de setembro de 1940.
Ainda vale a pena dar vida ao boneco de madeira na tela?
Com certeza. Pinóquio é aquele clássico raro que não tem valor por ser antigo, e sim porque continua funcionando. É lindo, engraçado, às vezes assustador, e no final constrói uma carga emocional de verdade. Se for assistir com criança, prepare-se para as perguntas. Se for sozinho, prepare-se para a oficina de Gepeto e o Grilo Falante ficarem na sua cabeça por dias. Para mim, é um 9/10 tranquilo e um filme para rever a qualquer hora.
