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Crítica · Estreia: 02/09/1940

Pinóquio, crítica: o boneco de madeira que, mais de oitenta anos depois, ainda emociona e assusta

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Tem história que embala e tem história que sacode, e Pinóquio faz as duas coisas sem pedir licença. O boneco de madeira da Disney ganha vida numa noite estrelada e, a partir daí, o filme monta ao redor dele um verdadeiro parque de diversões moral que deixa até o espectador de hoje de queixo caído. Revi já adulto e preciso confessar: o filme é muito mais corajoso, sombrio e bonito do que eu lembrava.

9,0/10
Nota
Pinóquio não é peça empoeirada de museu. É uma fábula lindamente desenhada e surpreendentemente dura, que segue entre os pontos mais altos de toda a obra da Disney.
História
8
Atuação
9
Direção
9
Visual
10
Música e som
9
Emoção
9

A nota geral é a média dos seis critérios.

Ficha do filme

OriginalPinocchio
Estreia no Brasil02/09/1940
DireçãoHamilton Luske, Ben Sharpsteen, T. Hee, Wilfred Jackson, Norman Ferguson, Jack Kinney, Bill Roberts
ElencoDickie Jones, Cliff Edwards, Christian Rub, Evelyn Venable, Walter Catlett, Mel Blanc
GêneroFilmes de animação, Filmes para a família, Filmes de fantasia
Duração88 min
ClassificaçãoL
PaísFilmes americanos

Um entalhador solitário e um desejo que se realiza

A premissa é tão simples que parece cantiga de roda: Gepeto, um velho entalhador solitário, esculpe um boneco e o batiza de Pinóquio. Numa noite mágica, uma fada dá vida à madeira, e o pequeno boneco parte rumo à grande aventura de toda criança: virar um menino de verdade, de carne e osso. Só que mágica não basta. Ele precisa merecer isso, mostrando coragem, lealdade e sinceridade.

E é aí que mora a virada que impede Pinóquio de ser um conto de fadas açucarado: o protagonista é ingênuo demais. Faz uma besteira atrás da outra, e o filme não passa pano. Pinóquio tropeça, confia nas pessoas erradas, toma decisões ruins, e as consequências às vezes são francamente assustadoras. É isso que torna a história verdadeira. Não estamos vendo o desfile triunfal de um herói perfeito, e sim uma criança aprendendo na própria pele o que é certo e o que é errado.

Não vou dar spoiler, claro, mas adianto uma coisa: quem só conhece o personagem dos livrinhos ou das propagandas vai se surpreender com o quanto o filme vai longe para colocar Pinóquio realmente à prova.

Grilo Falante, a consciência mais paciente do mundo

Se tem alguém que rouba a cena, é o Grilo Falante. O amiguinho sábio que gruda em Pinóquio para alertar, orientar e, quase sempre, falar sozinho. A voz de Cliff Edwards (no original) é tão calorosa, engraçada e humana que o grilo vira praticamente o coração do filme. É com ele que o espectador adulto se identifica: quem vê o problema chegando, tenta avisar e, mesmo assim, não desiste quando o boneco estraga tudo de novo.

Adoro que o Grilo não seja um sabichão certinho e pregador. Ele tem vaidade, tem cansaço, às vezes vacila também, e é justamente isso que o torna adorável. Para as crianças, ele é o amigo. Para os pais, funciona um pouco como espelho: é assim que é tentar educar alguém que, bem naquela hora, não quer te ouvir.

E não dá para esquecer o resto do elenco. O Gepeto de Christian Rub é tão bondoso e frágil que conquista a gente logo nas primeiras cenas. A Fada Azul de Evelyn Venable é etérea e reconfortante. E Dickie Jones, como a voz de Pinóquio, acerta em cheio aquele tom infantil, curioso e meio atrapalhado que deixa o personagem irritante e comovente ao mesmo tempo.

Vilões que ainda me dão arrepios

Um dos maiores trunfos de Pinóquio é sua galeria de vilões. Walter Catlett empresta a voz ao dissimulado e pomposo João Honesto (no original, "Honest John" Worthington Foulfellow), a tentação em pessoa: sorri, bajula e, enquanto isso, já está calculando o lucro. Ao lado dele está Gideão, cujos soluços são feitos por ninguém menos que Mel Blanc, lenda das vozes de desenho, que a maioria conhece pelos personagens dos Looney Tunes da Warner.

Charles Judels aparece em dois papéis: ele dubla Stromboli e o Cocheiro, e os dois são tão ameaçadores que os pequenos podem mesmo dar um pulo no sofá. Já Frankie Darro, como Espoleta, a má companhia, traz aquela voz de adolescente descolado e folgado que um boneco ingênuo, é claro, vai admirar.

O que mais me agrada: esses vilões não são caricaturas. Assustam porque são críveis. São exatamente o tipo de adulto e de mau amigo de que os pais sempre tentam proteger os filhos, e o filme mostra isso com uma franqueza surpreendente.

Sete diretores, um só clima: assim é a magia desenhada à mão

À primeira vista, os créditos assustam: Hamilton Luske, Ben Sharpsteen, T. Hee, Wilfred Jackson, Norman Ferguson, Jack Kinney e Bill Roberts aparecem todos como diretores. Sete nomes num filme de 88 minutos? Isso era parte natural do jeito como a Disney trabalhava no começo, com diferentes diretores cuidando de diferentes sequências. E o milagre é que o resultado não virou uma colcha de retalhos. Pinóquio é coeso, fluido, e o clima se mantém inteiro do começo ao fim.

O visual é simplesmente deslumbrante. Os detalhes minúsculos da oficina de Gepeto, os relógios e brinquedos entalhados em madeira, o jogo de luzes na noite estrelada: cada quadro parece uma pintura. Para olhos acostumados à animação digital de hoje, toda lisinha, chama atenção a quantidade de trabalho feito à mão e de detalhes caprichados. Não é exagero dizer que Pinóquio é uma das obras mais bonitas da animação tradicional.

O ritmo, claro, é diferente de um filme família atual. Às vezes ele se demora numa cena, deixando o visual e a música fazerem o trabalho. Eu curti muito isso, mas uma criança acostumada a tudo acelerado pode ficar um pouco impaciente de primeira.

Onde ele conquista, e onde pode pesar um pouco?

Vamos começar pelo que funciona:

E o que impede um 10 cravado: a história às vezes é episódica, pula de aventura em aventura, e a ingenuidade do protagonista chega a ser quase irritante em certo momento. Claro que essa é a ideia, mas o adulto vai, aqui e ali, colocar a mão na cabeça pensando "Pinóquio, sério mesmo?". Além disso, alguns trechos do filme são de fato sombrios e assustadores. Para os menorzinhos, assistir junto com um adulto e conversar um pouco depois é muito recomendável.

Mas isso tudo é mais característica do que defeito. Pinóquio nasceu numa época em que conto de fadas ainda tinha coragem de dar medo, e acho que é por isso que ficou tão gravado na memória do público.

Por que vale a pena sentar para ver hoje?

Não é à toa que o filme é tratado como clássico obrigatório da Walt Disney, e eu concordo totalmente. Pinóquio não é só nostalgia. Continua atual falar que as crianças vivem cercadas de tentações, que os "amigos" barulhentos e atraentes nem sempre querem o bem delas e que mentira tem consequência. E o filme diz tudo isso divertindo, fazendo rir e, em alguns momentos, sacudindo de verdade.

É perfeito para uma sessão em família, principalmente se o adulto estiver ali junto, participando. Depois, rende uma ótima conversa: por que Pinóquio acreditou nas pessoas erradas? O que ele deveria ter feito? O que o Grilo Falante teria dito? Poucos filmes colocam essas perguntas na nossa mão com tanta naturalidade.

E, adulto, vale rever sozinho também. A experiência muda: você enxerga mais da solidão de Gepeto, da esperteza dos vilões e de quanto trabalho, carinho e arte existem em cada movimento desenhado.

Para quem é?

Se gostar, veja também: Branca de Neve e os Sete Anões (1937), Fantasia (1940), Dumbo (1941), Bambi (1942), Cinderela (1950)

Perguntas frequentes

Sobre o que é Pinóquio?

Numa noite mágica, uma fada dá vida ao boneco de madeira de Gepeto, um entalhador solitário. Pinóquio precisa aprender coragem, lealdade e sinceridade para virar um menino de verdade, enquanto seu amigo sábio, o Grilo Falante, tenta livrá-lo das besteiras.

Quanto tempo dura Pinóquio?

O filme tem 88 minutos.

Quem dirigiu Pinóquio?

O filme foi dirigido por Hamilton Luske, Ben Sharpsteen, T. Hee, Wilfred Jackson, Norman Ferguson, Jack Kinney e Bill Roberts.

Quem faz as vozes de Pinóquio e do Grilo Falante?

Na versão original, Pinóquio é dublado por Dickie Jones e o Grilo Falante (Jiminy Cricket) por Cliff Edwards.

Qual é o gênero de Pinóquio?

É uma animação americana de fantasia para toda a família, um dos clássicos da Walt Disney.

Quando Pinóquio estreou no Brasil?

O filme chegou aos cinemas brasileiros em 2 de setembro de 1940.

Ainda vale a pena dar vida ao boneco de madeira na tela?

Com certeza. Pinóquio é aquele clássico raro que não tem valor por ser antigo, e sim porque continua funcionando. É lindo, engraçado, às vezes assustador, e no final constrói uma carga emocional de verdade. Se for assistir com criança, prepare-se para as perguntas. Se for sozinho, prepare-se para a oficina de Gepeto e o Grilo Falante ficarem na sua cabeça por dias. Para mim, é um 9/10 tranquilo e um filme para rever a qualquer hora.

Nota: 9,0/10 · História 8 · Atuação 9 · Direção 9 · Visual 10 · Música e som 9 · Emoção 9