Annabelle crítica: a boneca mais assustadora do cinema, que nunca se mexe
Tem aquele tipo de boneca que você nem tiraria da prateleira da loja, e tem a Annabelle, que alguém ainda resolve dar de presente. A coadjuvante mais marcante de Invocação do Mal ganhou filme próprio em 2014 e, embora o rosto da boneca continue impecavelmente aterrorizante, a história construída ao redor dela muitas vezes bate educadamente na porta em vez de arrombá-la. Mesmo assim, numa noite chuvosa, pode funcionar surpreendentemente bem.
Um terror de boneca com bom clima e execução correta, mas previsível demais, que deve sua fama muito mais ao rosto de porcelana da protagonista do que ao roteiro.
Ficha do filme
| Estreia no Brasil | 09/10/2014 |
|---|---|
| Direção | John R. Leonetti |
| Elenco | Annabelle Wallis, Ward Horton, Tony Amendola, Alfre Woodard, Eric Ladin, Kerry O'Malley |
| Gênero | Filmes de terror |
| Duração | 99 min |
| Classificação | 14 |
| País | Filmes americanos |
Um presente que era melhor ter devolvido
A premissa é clássica, quase de manual. John Form surpreende a esposa grávida, Mia, com uma boneca antiga. Um gesto carinhoso, pelo menos até a noite em que membros de uma seita satânica invadem a casa do jovem casal. Depois do ataque, ficam para trás não só sangue e dor, mas algo muito pior do que os próprios invasores: uma força se liberta dentro da casa, e essa força tem rosto. O rosto da Annabelle.
Isso é o que vale saber antes de dar o play, e sinceramente basta. O filme não aposta em reviravoltas, e sim naquela sensação que vai apertando aos poucos de que o lar, supostamente seguro e ainda por cima no meio da espera por um bebê, de repente vira território inimigo. Essa combinação de futura mãe vulnerável e ameaça invisível é uma receita antiga e testada do terror, e o filme nem tenta esconder de onde bebe.
Mia, John e a boneca que rouba a cena de todo mundo
No papel principal, Annabelle Wallis vive Mia, e só essa coincidência de nomes já é uma piadinha cósmica que deve ter rendido muita risada no set. Wallis é simpática e convincente como a mulher ansiosa e cada vez mais sozinha, e boa parte do filme acontece praticamente no rosto dela: a gente acompanha a suspeita virando certeza. Ao lado dela, Ward Horton faz John, o marido bem-intencionado mas meio apagado, um personagem que infelizmente não ganha muitas camadas.
Entre os coadjuvantes, quem se destaca é Alfre Woodard como Evelyn, aquele tipo de atriz capaz de dar peso a uma personagem em uma ou duas cenas. Tony Amendola encarna o Padre Perez, o indispensável sacerdote dos filmes de terror, Eric Ladin aparece como o detetive Clarkin, e Kerry O'Malley e Brian Howe surgem como o casal Higgins. Um elenco bonito e organizado, mas vamos combinar: quem rouba o show é a boneca, que não mexe um músculo do rosto.
O diretor de fotografia que virou diretor
Na cadeira de diretor está John R. Leonetti, que antes trabalhava como diretor de fotografia, inclusive em Invocação do Mal, de James Wan, filme de onde a Annabelle saiu. Essa bagagem aparece na tela: as imagens são cuidadosas, os enquadramentos pensados, e a casa antiga, os corredores escuros e o quarto do bebê na penumbra têm exatamente a cara que um bom filme de assombração precisa ter. Leonetti sabe onde colocar a câmera para fazer o espectador começar a vasculhar os cantos do quadro.
Onde ele se mostra menos seguro é no ritmo. Muitas vezes o filme passa tempo demais construindo tensão com as mesmas ferramentas, e quando a explosão finalmente chega, a gente já adivinhou de onde ela vem. Parece que o diretor confia mais nas próprias imagens do que na própria história. O que, em parte, é até compreensível.
Quando funciona: o medo lento e silencioso
Sejamos justos: há cenas que funcionam muito bem. Os momentos mais fortes do filme são aqueles em que quase nada acontece, só um objeto fora do lugar, só um som vindo do quarto ao lado, só a boneca olhando para uma direção um pouquinho diferente de antes. Esse terror minimalista fica gravado muito mais do que qualquer susto barulhento.
- O clima: a decoração de época e a paleta de cores quente, mas opressiva, caem muito bem no filme.
- O design de som: a dosagem de rangidos, silêncio e barulhos repentinos acerta em cheio em vários momentos.
- A própria boneca: simplesmente lindamente horrorosa. Basta olhar para ela.
Onde escorrega: sustos previsíveis
O problema é que o filme recorre vezes demais à ferramenta mais barata, o jump scare com estrondo. Funciona por um tempo, mas logo o espectador aprende a coreografia e já se encolhe antes da hora, o que mata justamente a surpresa do susto. Além disso, o roteiro é bem esquemático: os personagens tomam a decisão errada exatamente onde e quando o manual do gênero manda.
Quem teve o primeiro contato com esse universo em Invocação do Mal vai notar como a família aqui é bem menos profunda e cativante. Lá a gente se preocupava com os personagens; aqui, mais com a própria tranquilidade. Por outro lado, os 99 minutos de duração deixam tudo agradavelmente enxuto, sem enrolação desnecessária.
Terror de boneca, um dos pesadelos mais antigos do gênero
Por que uma boneca de porcelana funciona tão bem para assustar? Porque ela é familiar, tem forma humana e, mesmo assim, não está viva. Fica exatamente no meio do caminho, e é essa zona intermediária que deixa o espectador desconfortável. A história do cinema está cheia desse medo, do Chucky de Brinquedo Assassino às bonecas paradas na prateleira dos velhos filmes de casa mal-assombrada. Annabelle entra nessa tradição e, nos seus melhores momentos, faz jus a ela.
Já o tema da gravidez é, desde O Bebê de Rosemary, uma das armas mais poderosas do terror: o corpo que já não é só nosso, o futuro ameaçado e as pessoas ao redor que não acreditam em nós. O filme explora bem essa linha, ainda que não a esgote.
Para quem é?
- É para você se: Para quem curte terror clássico de casa assombrada, que vai construindo a tensão devagar, e para quem já foi fisgado pelo universo de Invocação do Mal. Ideal para uma sessão em grupo, com as luzes apagadas.
- Melhor pular se: Quem busca reviravoltas originais, personagens profundos ou soluções inovadoras vai se decepcionar. E, claro, quem tem uma boneca antiga sentada na prateleira de casa.
Se gostar, veja também: Invocação do Mal (2013), O Bebê de Rosemary (1968), Brinquedo Assassino (1988), A Entidade (2012), O Exorcista (1973)
Perguntas frequentes
Quando Annabelle estreou no Brasil?
O filme estreou nos cinemas brasileiros em 9 de outubro de 2014.
Qual é a história de Annabelle?
John Form dá uma boneca antiga de presente para a esposa grávida, Mia. Certa noite, membros de uma seita satânica invadem a casa do casal e, depois do ataque, algo terrível se liberta ali dentro: Annabelle.
Qual é a duração de Annabelle?
O filme tem 99 minutos.
Quem dirigiu Annabelle?
O filme foi dirigido por John R. Leonetti.
Quem está no elenco de Annabelle?
Annabelle Wallis interpreta Mia Form e Ward Horton faz John Form. O elenco conta ainda com Alfre Woodard, Tony Amendola e Eric Ladin.
Vale a pena deixar a Annabelle entrar na sua sala hoje à noite?
Se você não espera uma reinvenção do terror, e sim uma história de boneca bem fotografada, cheia de clima e às vezes realmente arrepiante, então sim. Annabelle não é uma obra-prima e nunca sai de verdade da sombra de Invocação do Mal, mas o rosto de porcelana da protagonista é tão icônico que segura o filme até nos momentos mais fracos. Apague a luz, sente no sofá e não olhe para a prateleira. Ela já está olhando para você.
